A Neurociência do TOC

Estudo do IDOR e da UFRJ analisa anormalidades no cérebro de pessoas com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).

Você provavelmente já ouviu falar sobre TOC; pode ter achado que alguém muito organizado com a limpeza sofria do problema, ou até mesmo que você possuía a condição quando deparado com pensamentos repetitivos sobre coisas aparentemente triviais. Na realidade, muitas pessoas possuem manias, ou comportamentos sistemáticos corriqueiros que não trazem maiores dificuldades para as suas vidas. Mas, no caso do TOC, sigla para o Transtorno Obsessivo Compulsivo, essas manias se transformam em obsessões que passam a dominar o pensamento do indivíduo, configurando-se em um transtorno psiquiátrico.

Segundo a American Psychiatric Association, o TOC é caracterizado por pensamentos e imagens invasivas que acometem insistentemente a mente de algumas pessoas. Esses fatores ficam reverberando de forma intensa, causando um alto nível de ansiedade, cuja única solução é o alívio momentâneo de ceder a um ritual próprio de compulsão, seja lavando muito as mãos, revisando várias vezes uma porta trancada, calculando soluções matemáticas, entre outras diversas formas de comportamento obsessivo. Os atuais tratamentos para a doença baseiam-se principalmente no uso de antidepressivos e em terapias de exposição e prevenção de resposta, método que faz com que os pacientes enfrentem gradualmente as situações causadoras da crise e aprendam a controlá-la. Porém, apesar dos notáveis avanços no tratamento do problema, pouco se sabe sobre a origem da doença, o que impede o desenvolvimento de medicamentos e procedimentos mais efetivos para os pacientes.

Interessada nesta questão, Juliana Andrade, doutoranda da Faculdade de Ciências Médicas do IDOR, participou de um estudo publicado na Frontiers in Human Neuroscience, onde foi executada uma análise metabólica e estrutural das anormalidades presentes no cérebro de pessoas com TOC. A publicação foi fruto de uma colaboração entre o IDOR e a UFRJ, onde Andrade concluiu seu mestrado. “As pessoas com TOC relatam sérios problemas no trabalho, no relacionamento e nos estudos, mas ainda não sabemos exatamente o que faz a pessoa apresentar esses comportamentos. Mesmo com os atuais tratamentos, a taxa de respostas positivas varia de 40% a 60%, o que significa que para muitos pacientes ainda não há uma solução para o problema ou um alívio dos sintomas. É por isso que achamos importante estudar e entender a neurobiologia e fisiopatologia do transtorno”, relata a doutoranda.

Para entender melhor a bioquímica cerebral dos pacientes com TOC, o estudo realizou dois tipos de análise através de ressonância magnética: a imagem por tensor de difusão e a espectroscopia. A imagem por tensor de difusão estuda a microestrutura da substância branca do cérebro, que é responsável pela transmissão de informações, enquanto a espectroscopia avalia a bioquímica cerebral, isto é, a concentração das substâncias no órgão. O grande desafio, porém, foi que todos os pacientes envolvidos no estudo estavam sob uso de medicamentos, portanto, o nível de suas substâncias químicas estaria alterado no resultado final.

Para superar esse obstáculo, os pesquisadores utilizaram então uma escala de medicação para cada paciente, estabelecendo valores individuais de acordo com o tipo e a dosagem de seus remédios. Na análise final, os resultados estatísticos foram corrigidos com base nesses dados, o que se mostrou efetivo na comparação bioquímica entre os 23 pacientes com TOC e os 21 indivíduos saudáveis, que também foram estudados através da ressonância magnética. A diferença entre eles estava principalmente na quantidade de glutamato e glutamina, substâncias encontradas em excesso no caso das pessoas com o transtorno.

Segundo Andrade, outros estudos já haviam identificado a alteração de glutamato no cérebro de pessoas com TOC. A substância é um neurotransmissor excitatório, responsável por induzir os estímulos cerebrais de forma rápida. O estudo, porém, também identificou anormalidades estruturais no cérebro dos pacientes, principalmente na área conhecida como feixe do cíngulo, que é responsável por evocações na memória, aprendizagem e na conexão com o sistema límbico, que está relacionado com nossas emoções e comportamentos sociais.

A doutoranda afirma que essas descobertas são essenciais para entender a neurobiologia do transtorno, e os estudos tendem a apontar que o problema afeta todo um circuito cerebral, envolvendo áreas corticais (superficiais) e subcorticais (mais profundas) do cérebro. “Esse estudo é importante porque ele é um trabalho de base, estamos buscando entender os mecanismos da doença para que, futuramente, possamos desenvolver melhores tratamentos. Também queremos identificar os biomarcadores do transtorno, que são medidas como o exame de sangue,que nos ajudam a reconhecer e a tratar o problema através de dados mensuráveis, e não apenas com o diagnóstico clínico”, afirma.  

Por enquanto, muitos outros estudos ainda se farão necessários antes de qualquer procedimento efetivo. Mas é importante que as pesquisas relacionadas ao Transtorno Obsessivo Compulsivo continuem desenvolvendo tratamentos focados na melhora da qualidade de vida dos pacientes, à medida que outras vertentes possam seguir enveredando pelo entendimento da origem da doença; podendo, talvez um dia, atuar na inibição de sua causa.