Bom para o corpo e para o cérebro

Estudo da UFRJ revela que hormônio produzido durante a prática de exercícios físicos tem ação neuroprotetora. IDOR participou da pesquisa, que incluiu avaliação de pacientes com doença de Alzheimer.

Um hormônio descoberto em 2012, a irisina, pode ser a chave para entender por que a prática de atividades físicas beneficia a memória. Embora já se soubesse que a substância era produzida pelos músculos, a irisina foi identificada pela primeira vez em amostras de tecido cerebral humano por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A descoberta abre caminho para pensar novos tratamentos contra a doença de Alzheimer, que envolve a perda progressiva da memória e ainda não tem cura.

Trabalhos anteriores já haviam estabelecido relação entre a irisina e funções metabólicas, como a queima de gorduras. Porém, no estudo liderado pelos pesquisadores Sergio Ferreira e Fernanda De Felice, ambos da UFRJ, o foco foi a presença da irisina no cérebro, constatada pela análise de amostras post-mortem de tecido cerebral humano. No Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), também foram coletadas amostras de líquido cerebroespinhal (líquor) de pacientes com Alzheimer e outra forma de demência, conhecida como demência com corpos de Lewy. Verificou-se que a concentração da irisina nesses pacientes é reduzida se comparada a pessoas sem queixas de memória.

O estudo, publicado no dia 7 de janeiro na revista Nature Medicine, relatou também experimentos realizados em modelos animais que confirmaram que o cérebro produz irisina em resposta à atividade física, e que a substância ajuda a proteger as sinapses -- isto é, as comunicações entre os neurônios --, fundamentais para a memória. Além disso, os experimentos mostraram que a aplicação de irisina no cérebro de roedores pode ser uma forma de interferir na progressão de uma doença neurodegenerativa como o Alzheimer.

“Mostramos, por um lado, que a reposição de irisina diretamente no cérebro ou perifericamente é capaz de proteger contra o déficit de memória. Por outro, identificamos que, se bloqueamos a irisina periférica ou central, o exercício físico deixa de ter efeito neuroprotetor”, explica Mychael Lourenço, pesquisador da UFRJ e primeiro autor do trabalho. “Em conjunto, esses resultados demonstram o potencial neuroprotetor da irisina e sugerem que ela seja um mediador importante das ações positivas do exercício físico no cérebro”.

Além de ajudar a explicar como as atividades físicas podem beneficiar o cérebro de pessoas saudáveis ou com queixas de memória, o trabalho também abre um caminho interessante para o desenvolvimento de drogas contra a doença de Alzheimer. “Se o potencial terapêutico da irisina de fato se confirmar em humanos, será possível desenvolver junto à indústria abordagens farmacológicas miméticas do exercício físico para aqueles pacientes que já não podem se exercitar tão bem devido à idade ou a outras doenças”, aposta Lourenço.

Uma vantagem da irisina para a utilização terapêutica é o fato de ser um hormônio já produzido pelo organismo humano, como ressalta Sergio Ferreira. “Imagina-se que a irisina poderia trazer menos efeitos colaterais adversos em futuros testes clínicos”, sugere.

Enquanto isso não acontece, Lourenço reforça que o trabalho recém-publicado ajuda a ressaltar a importância da prática de exercícios físicos. Além dos inúmeros benefícios já conhecidos das atividades físicas, elas podem ser usadas como forma de prevenir ou desacelerar a progressão do Alzheimer. Em roedores com a doença, o exercício físico foi capaz de aumentar a presença da irisina no cérebro e reverter o déficit de memória.

Diagnóstico diferenciado

Os pacientes com doença de Alzheimer e demência com corpos de Lewy envolvidos no estudo receberam seu diagnóstico na Memory Clinic, serviço do Instituto D’Or especializado em problemas de memória em adultos. Sua equipe multidisciplinar possui reconhecida experiência em pesquisa científica, e é composta por psiquiatras, neurologistas, psicólogos, fonoaudiólogos e radiologistas.

A Memory Clinic realiza uma extensa bateria de exames comportamentais, neuropsicológicos, clínicos e radiológicos, incluindo imageamento por ressonância magnética de alto campo, o que dá mais segurança para médicos, pacientes e familiares. “Os pacientes incluídos no estudo receberam o diagnóstico após uma avaliação bastante detalhada e cuidadosa, o que geralmente não é feito na maioria dos estudos científicos por razões de tempo e de financiamento”, destaca o médico psiquiatra Paulo Mattos, coordenador da Memory Clinic e um dos autores do estudo.