Câncer e terapia intensiva

VI Congresso Internacional Oncologia D’Or reuniu especialistas para discutir a medicina baseada em valor no tratamento do paciente oncológico grave.

Não basta internar e medicar o paciente, é preciso oferecer tratamento humano e de qualidade. Esse é o conceito por trás da medicina baseada em valor, filosofia que vem sendo colocada como diretriz nos hospitais ao redor do mundo. Durante o VI Congresso Internacional Oncologia D’Or, nos dias 9 e 10 de novembro, o assunto foi discutido por especialistas sob a ótica da terapia intensiva, em sessão liderada pelo médico e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) Jorge Salluh.

Oferecer tratamento adequado dentro de uma unidade de terapia intensiva (UTI) significa conhecer as características de cada paciente a fim de planejar o curso da internação, o que diminui mortalidade, tempo de permanência na unidade e recursos utilizados. E a ciência pode ajudar nesse planejamento, acredita Thiago Romano, coordenador médico da UTI oncológica do hospital São Luiz Itaim, em São Paulo. Estudos de grandes bases de dados permitem entender os fatores que determinam a evolução do quadro do paciente e permitem a personalização do tratamento, ao identificar quais pacientes irão, de fato, se beneficiar da internação e dos procedimentos propostos pela equipe médica.

Romano destacou, em sua palestra, algumas das publicações decorrentes do Orchestra, a maior base de dados brasileira sobre fatores organizacionais em UTIs, liderada pelo IDOR (veja alguns artigos aqui e aqui). O especialista listou também pequenas mudanças práticas na rotina de atendimento da UTI que podem ser responsáveis por grandes melhorias na qualidade do tratamento oferecido. Uma dessas mudanças é a maior integração entre a equipe de intensivistas e a de oncologistas, como mostrado em estudo de pesquisadores do IDOR em 2016. Entre outros achados, a pesquisa citada por Romano evidencia que o trabalho conjunto entre intensivistas e oncologistas é capaz de reduzir a mortalidade e os recursos utilizados em UTIs oncológicas.

Humanização e melhoria dos resultados

Outros fatores destacados por Romano que impactam positivamente o tratamento do paciente oncológico grave são os que visam tornar o ambiente da UTI mais humanizado.

Ações preconizadas pelo especialista para alcançar esse objetivo incluem abrir o setor aos familiares e à presença de animais de estimação – pois estudos sugerem que os bichos auxiliam na redução de ansiedade e depressão, minimizando o sofrimento do paciente e promovendo melhora do quadro clínico. Por fim, Romano foi categórico: “cuidar da saúde mental e física da sua equipe permite a execução de todas essas práticas”, completou.

Em seguida, Salluh apresentou alguns fatores associados ao prognóstico dos pacientes. “Um a cada seis pacientes internados em uma unidade de terapia intensiva tem origem oncológica, o que torna a otimização dos processos de cuidado um caso de saúde pública”, argumentou. Embasado por evidências científicas, o especialista ressaltou algumas recentes mudanças na percepção sobre o tratamento de pacientes oncológicos graves. Ao contrário do que se acreditava, o tipo de malignidade não é mais visto como determinante para a sobrevida do paciente. De acordo com levantamentos recentes, alguns dos principais fatores prognósticos são a severidade do comprometimento orgânico agudo, a presença de comorbidades, a capacidade funcional e a necessidade de ventilação mecânica, entre outros.

Para encerrar a sessão, o gerente médico das UTIs do hospital Copa D’Or, William Viana, falou sobre a importância da doença crítica crônica (DCC), caracterizada por disfunções orgânicas e quadro inflamatório por longos períodos. “Essa doença é uma realidade com a qual precisamos aprender a lidar”, afirmou, e alertou sobre a importância da DCC para a promoção da medicina baseada em valor. O paciente com DCC permanece por mais tempo na UTI, além de retornar com maior frequência após a alta. Estudo sugere que esse quadro pode ser responsável por até 60% de todo o gasto de uma unidade de terapia intensiva. Para Viana, é preciso que o paciente esteja no centro da discussão focada em cuidado paliativo e integrativo. O palestrante ressaltou, por fim, a importância da comunicação eficaz com os familiares.