Ciência de olho no envelhecimento

Como o aumento do número de idosos na população está norteando o desenvolvimento científico na área médica? Instituto D’Or vem enfrentando este desafio em diferentes frentes, com pesquisas sobre doenças crônicas e seu impacto no sistema de saúde.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), até 2050, a população mundial acima de 60 anos vai mais que dobrar, chegando a 2 bilhões. O envelhecimento populacional é uma tendência global e cada vez mais acelerada – se, por exemplo, a França viu seu percentual de idosos de 10% para 20% em 150 anos, Brasil, China e Índia precisarão se adaptar a essa mudança em um período de 20 anos. Esse cenário já suscitou novas políticas públicas e econômicas e, não por acaso, tem impactado também a ciência. Diversos centros de pesquisa no Brasil e no exterior, incluindo o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), estão voltando suas atenções para os problemas que acompanham a terceira idade, como as doenças crônicas, e seu impacto sobre o sistema de saúde.

A lógica de que não basta viver mais, mas é preciso envelhecer com qualidade impõe enormes desafios para a saúde pública e a ciência globais. Os principais estão relacionados a doenças como diabetes, câncer, hipertensão, doenças hepáticas e transtornos mentais, cuja prevalência entre idosos pode ser maior do que nas demais faixas etárias.

Na área da hepatologia, especialidade da gastroenterologista Renata Perez, pesquisadora do IDOR e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), esse tema já é urgente. Atualmente, cerca de 325 milhões de pessoas vivem com hepatite B crônica ou hepatite C, doenças que podem progredir para doença hepática crônica, câncer e morte. Pelo fato de serem silenciosas, é possível conviver por anos com doenças hepáticas sem que se saiba, o que tem impacto sobre a qualidade de vida na terceira idade.

De acordo com a pesquisadora, é fundamental que as pesquisas avancem no desenvolvimento de métodos de detecção precoce dessas doenças. Perez lidera pesquisas que se debruçam sobre métodos de imagem por ressonância magnética, neuropsicologia e algumas substâncias presentes na urina de pacientes, que visam encontrar biomarcadores precoces das doenças hepáticas, o que permitiria a redução de seu impacto sobre a saúde.

O cérebro do idoso

A saúde mental na terceira idade também está no foco dessa discussão. Atualmente, cerca de 47 milhões de pessoas vivem com algum tipo de demência. Acredita-se que este número salte para 75 milhões em 2030, quase triplicando até 2050. O que é possível fazer para reverter este quadro? “Estamos investigando algo que é um enigma em psiquiatria da terceira idade, a síndrome metabólica e sua relação com as demências”, responde Paulo Mattos, psiquiatra e pesquisador do IDOR e da UFRJ.

A síndrome metabólica é caracterizada por hipertensão arterial e níveis elevados de açúcar, HDL e triglicerídeos no sangue, além de excesso de gordura abdominal, e leva ao aumento do risco de doenças cardiovasculares. Como as doenças cardiovasculares aumentam a chance do surgimento de demências, cientistas vêm explorando a relação entre os componentes da síndrome metabólica e a saúde mental de idosos.

Recentemente, Mattos liderou o maior estudo de revisão sobre o assunto, publicado em março de 2018 no periódico PloS One. Como resultado, o psiquiatra e seus colaboradores perceberam que as evidências cientificas disponíveis até o momento não são capazes de elucidar a relação entre síndrome metabólica e demências. Outras pesquisas sobre este tema estão em andamento, sob a responsabilidade da equipe da Memory Clinic, que combina ciência e serviço de diagnóstico de memória em adultos e idosos.

Desafios no atendimento hospitalar

Somadas, as doenças crônicas tendem a levar um número cada vez maior de pessoas, principalmente idosos, para hospitais e unidades de terapia intensiva. Dessa maneira, otimizar o tratamento oferecido aos pacientes e preparar hospitais e equipes médicas para esse aumento da demanda são as principais preocupações do grupo de pesquisadores do IDOR liderado pelo médico intensivista Márcio Soares. Esse é o foco da segunda (e atual) fase do Orchestra (do inglês Organizational Characteristics in Critical Care – Características Organizacionais em Cuidados Intensivos), frente de estudos que investiga fatores organizacionais de uma unidade hospitalar e seu impacto sobre o custo do tratamento e a evolução de pacientes críticos.

A iniciativa – a maior do mundo em sua área – acontece em colaboração com pesquisadores de diversos países.