Como treinar seu... cérebro

Aprender a controlar a própria atividade cerebral é o objetivo da técnica conhecida como neurofeedback. Em estudo piloto, ela foi combinada à realidade virtual para permitir o treinamento em duas emoções complexas, a ternura e a angústia.

Depressão e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade são exemplos de problemas psiquiátricos geralmente tratados com medicamentos e psicoterapia. No entanto, uma terceira forma de tratamento vem despontando como promissora em estudos neurocientíficos: a observação e o controle da própria atividade cerebral, técnica chamada pelos pesquisadores de neurofeedback. Aliada à realidade virtual, ela pode mostrar aos pacientes como treinar seu cérebro, o que teria impacto direto sobre o comportamento dos indivíduos – é o que indica um estudo do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Monash, na Austrália.

Neurofeedback é o nome que se dá à prática de mostrar a uma pessoa sua atividade cerebral, para que ela tente controlá-la. Uma das maneiras de se fazer isso é usar um aparelho de ressonância magnética. Enquanto o paciente está fazendo o exame, recebe, em tempo real, informações sobre como seu cérebro está funcionando, e começa a tentar controlar esse funcionamento. Trata-se, literalmente, de uma técnica para treinar o cérebro a controlar a si mesmo, um aprendizado que, após o treinamento inicial, leva a mudanças de comportamento duradouras – mais ou menos como aprender a andar de bicicleta, algo que o cérebro se lembra de como fazer mesmo depois de muito tempo sem praticar.

Pesquisas já utilizaram o neurofeedback com sucesso em pacientes com dor crônica, esquizofrenia e doença de Parkinson. Entre as vantagens da técnica estão a segurança e a falta de efeitos colaterais. Mas uma dificuldade encontrada pelos cientistas é oferecer ao paciente feedback sobre sua atividade cerebral de forma amigável. Entra aí a importância da realidade virtual. “Em vez de colocar um simples termômetro que diga se certa região do cérebro está mais ou menos ativa, a realidade virtual cria um ambiente complexo que engaja ainda mais os indivíduos e torna o treinamento mais eficiente”, afirma o cientista da computação Bruno Melo, doutorando em engenharia biomédica pela UFRJ e pelo IDOR.

O experimento

Em estudo publicado na edição de julho da revista Frontiers in Neurology, Melo e outros pesquisadores, liderados pelo neurocientista Jorge Moll, do IDOR, realizaram um experimento em que a realidade virtual foi usada para um treinamento de emoções complexas – isto é, que envolvem diferentes partes do cérebro – com neurofeedback. Participaram da pesquisa oito voluntários saudáveis, no Brasil e na Austrália. “O objetivo era mostrar que a pesquisa apresenta resultados consistentes, independentemente de onde ou quem a realiza”, destaca Melo.

O treinamento com neurofeedback aconteceu em dois dias e durou cerca de duas horas no total. Nele, os voluntários permaneciam dentro do aparelho de ressonância magnética enquanto ouviam música e observavam um cenário virtual, em que se moviam por uma fazenda. Nesse contexto, recebiam instruções para sentir ternura sempre que a música ficasse mais alegre e as cores do cenário, mais quentes e alaranjadas. Por outro lado, deveriam sentir angústia quando a música se tornasse mais soturna e as cores, mais escuras e sombrias.

Durante o experimento, à medida que as áreas cerebrais relacionadas ao sentimento de ternura e outras emoções positivas (como córtex medial pré-frontal, entre outras) eram recrutadas, a paisagem ficava mais quente e alegre. Da mesma forma, quando o voluntário conseguia de fato recrutar as regiões do cérebro ligadas à angústia e aos sentimentos negativos (como a amígdala e o córtex pré-frontal dorsolateral), o cenário ficava ainda mais sombrio. Os participantes relataram que, com a ajuda do feedback da realidade virtual, era possível evocar cada uma das emoções com mais intensidade.

O cenário ganhava cores mais vivas quando os voluntários apresentavam sentimentos de ternura,
e mais sombrias quando o sentimento era de angústia.

Segundo os autores do trabalho, esses resultados mostram que o treinamento com neurofeedback e realidade virtual permite aos indivíduos engajar várias áreas cerebrais especificas de uma só vez. “Ainda é um estudo piloto, que precisa ser expandido para que tenhamos a real ideia do impacto desse treinamento sobre as emoções complexas”, ressalta Melo. “No entanto, é um início promissor, que aponta uma direção sobre o caminho que devemos seguir a fim de torná-lo uma alternativa terapêutica”, aposta.

Uma das limitações do estudo é ter incluído apenas pessoas saudáveis. “Essas pessoas têm mais facilidade de controlar as próprias emoções, quando comparadas a pacientes com algum tipo de transtorno”, ressalva Leonardo Fontenelle, psiquiatra, professor da UFRJ e pesquisador do IDOR. Por isso, será preciso ainda testar se haveria resultados positivos da nova metodologia também em testes com pacientes psiquiátricos. “A realidade virtual pode ser uma ótima aliada da psiquiatria, mas, para isso, novos estudos precisam deixar clara a sua eficiência nesses indivíduos”.