Conscientização contra o preconceito

Além de ser uma doença grave e incapacitante, a epilepsia carrega um estigma que perdura por séculos. Publicação recente mostra como Machado de Assis, um dos principais nomes da literatura brasileira, conviveu com a doença.

Perda momentânea da consciência, distúrbios de movimento e de humor: esses são alguns dos sintomas presentes nos pacientes que convivem com a epilepsia. No mundo todo, em 26 de março se celebra o dia da conscientização e do combate ao preconceito em torno doença. Em publicação recente, Gabriel de Freitas, médico neurologista e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), reuniu relatos históricos que narram como a doença interferiu na vida de um dos mais importantes escritores brasileiros, Machado de Assis.

A epilepsia é uma doença crônica que acomete o cérebro, caracterizada pela atividade excessiva e descontrolada das células neurais. Dependendo de que áreas cerebrais sejam acometidas pelo mau funcionamento, os sintomas podem gerar as típicas convulsões, episódios breves de movimentos involuntários ou perda de consciência, por exemplo. Atualmente, há medicamentos capazes de evitar as crises mais graves, mas a cura da epilepsia ainda está longe de ser uma realidade.

Das 50 milhões de pessoas no mundo que convivem com essa condição, 80% estão em países em desenvolvimento, onde o diagnóstico não é oferecido corretamente e a oferta de tratamento é insuficiente. A Organização das Nações Unidas estima que cerca de 70% dos pacientes com epilepsia poderiam viver sem as convulsões, se tivessem acesso à assistência médica adequada.

Além do sofrimento e da incapacidade que a doença pode gerar, muitos pacientes enfrentam também o estigma da epilepsia – muitos ouvem que o problema tem causas sobrenaturais ou que ocorre como forma de punição ou por culpa de alguém.

O pecado original de Machado de Assis

Vários relatos históricos narram que alguns personagens célebres sofreram de epilepsia, incluindo o imperador Napoleão Bonaparte e o filósofo Sócrates. Em artigo publicado em outubro de 2018 – parte do livro Desordens Neurológicas em Artistas Famosos (Editora Karger) –, Freitas conta um pouco da história de vida de Machado de Assis e sua luta contra a doença. No trabalho, o pesquisador reúne evidências obtidas a partir de relatos de contemporâneos do escritor e cartas enviadas a amigos próximos. Esses materiais indicam que Machado de Assis conviveu por muitos anos com a epilepsia, apesar de negá-la, recusando-se a usar o termo epilepsia. Como alternativa, o escritor empregava alguns eufemismos para se referir ao problema, como “o pecado original” e “a outra”.

Sabe-se que Machado de Assis era dono de um humor ligeiramente depressivo, presente em alguns de seus textos. Mas, de acordo com Freitas, é difícil precisar como a doença influenciou suas obras literárias ou sua personalidade. O escritor sofria diariamente por racismo, pois era mulato e neto de escravos. Em certas ocasiões, sua origem foi apontada como a causa da doença de que sofria, o que certamente tornou o convívio com a epilepsia ainda mais desafiador.

Mais de cem anos após sua morte, muitos avanços foram feitos para que a epilepsia fosse cada vez menos estigmatizada e que o tratamento pudesse alcançar um número maior de pacientes. Apesar das dificuldades, Machado de Assis entrou para a história da literatura brasileira como sendo um dos maiores escritores de todos os tempos.

Imagem: retirada de Wikipedia