Consequências do estresse na primeira infância

Tema de crescente interesse no mundo inteiro, as alterações genéticas provocadas pelo estresse nos primeiros anos de vida – em especial, em bebês prematuros que passam por internação em UTI – são tema de pesquisa no IDOR.

Muita gente compara o DNA a um livro de receitas para formar organismos vivos, mas sabe-se também que o ambiente tem participação importante nesse processo. Desde os anos 1990, cientistas vêm observando, inclusive, que as experiências por que uma pessoa passa em vida, sobretudo na infância, podem gerar alterações em seu material genético – e que essas mudanças podem ser transmitidas às gerações futuras. A ciência que estuda esse fenômeno é a epigenética, um dos principais temas de interesse do grupo de cientistas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) na área de pediatria.

“Sabemos que os primeiros mil dias e vida de uma pessoa têm enorme influência sobre sua vida adulta, mas não se sabe qual o papel da epigenética nessa relação”, afirma o pediatra Arnaldo Prata, líder da equipe de pesquisa em pediatria do IDOR. Com o avanço das tecnologias de sequenciamento e avaliação genética, e inspirados pelas evidências originadas por estudos em modelos animais, a equipe de Prata começou a investigar se fatores estressores na infância, como a separação materna e a internação em unidade de terapia intensiva (UTI) neonatal, por exemplo, podem induzir mudanças epigenéticas e impactar o desenvolvimento infantil.

De acordo com os pesquisadores do grupo, o ambiente da UTI neonatal é extremamente hostil para o bebê, que está longe da mãe, recebendo medicamentos e passando por procedimentos invasivos. “Fatores ambientais como esses têm influência direta sobre a expressão dos genes. O estresse, quando é intenso e contínuo, principalmente nos primeiros anos de vida (um período fundamental para o desenvolvimento cerebral), está associado a alterações químicas que ligam alguns genes e desligam outros, de forma que alguns genes se expressam e outros, não”, explica a pediatra Georgia Chalfun, doutoranda do IDOR.

Os trabalhos da equipe, desenvolvidos em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avaliam material genético para esclarecer se os bebês que passaram por internação em UTI apresentam alterações em genes responsáveis pelo controle do estresse. O comprometimento no controle do estresse pode ter efeitos prejudiciais para cérebro, coração e outros órgãos vitais que, nesta fase da vida, ainda estão em formação. No longo prazo, pode levar a doenças na vida adulta, como hipertensão, diabetes, depressão e alcoolismo.

“A minha grande questão é se o estresse ocasionado pela internação na UTI neonatal é intenso o suficiente para se tornar tóxico e causar alterações epigenéticas no DNA desses bebês”, revela Chalfun. “Eu gostaria muito de poder contribuir criando estratégias para minimizar esse estresse”.

Além de constatar se o estresse nos primeiros anos de vida leva a alterações epigenéticas, a equipe do IDOR pretende investigar se pequenas intervenções, como o método canguru – em que o bebê prematuro internado fica em contato com a pele da mãe, reduzindo o impacto causado pela separação materna – são capazes de reverter as alterações epigenéticas.

Outra faceta das pesquisas em epigenética promovidas pelo IDOR é esclarecer se eventos adversos vividos por pais e mães, como violência física e sexual, por exemplo, causam alterações epigenéticas que são transmitidas para seus filhos. Em resumo, a equipe pretende caracterizar a interação entre ambiente e genética, buscando alternativas de minimizar seu impacto negativo sobre a saúde de crianças e adultos. “No Brasil, esse é um tema de grande importância do ponto de vista de saúde pública, e que também está no foco na ciência mundial”, ressalta Prata.

Aprendizagem, zika, sepse e educação

Ainda na área de desenvolvimento infantil, Prata e seu grupo de pesquisa conduzem atualmente um estudo que investiga estratégias de aprendizado socioemocional. De acordo com os especialistas, o aprendizado escolar reúne diferentes habilidades além das intelectuais, como as socioemocionais, por exemplo.

Em colaboração com Faculdade de Educação de Harvard, nos Estados Unidos, os cientistas aplicam uma metodologia de aprendizagem de habilidades socioemocionais denominada SEL Kernels em crianças entre 3 e 6 anos de escolas de educação infantil de Paraty, no estado do Rio de Janeiro. Eles acreditam que a intervenção, de baixo custo e que envolve professores, pais e alunos, será capaz de promover melhora do desenvolvimento escolar.

Outra linha de pesquisa da equipe de pediatria está relacionada ao vírus Zika. Se, no período mais intenso em número de casos (2015/2016), os cientistas tentavam entender a manifestação clínica e o perfil epidemiológico da doença no Brasil, hoje, passado o surto, o grupo faz o acompanhamento dos filhos saudáveis de mães que tiveram a doença durante a gestação. Devido à presença de anticorpos maternos que podem confundir a avaliação, essas crianças, hoje com cerca de 3 anos, não tiveram a doença confirmada ao nascimento.

A partir de exames de sangue – e, agora, sem a interferência dos anticorpos da mãe –, os pesquisadores irão confirmar se os bebês foram ou não infectados. “Caso eles não tenham tido contato com o vírus durante a gestação, mesmo com a comprovação da infecção de suas mães, queremos entender o porquê”, explica Prata. No estudo, que é um consórcio liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), as crianças fazem avaliações neurológicas periódicas, além de avaliações dos sistemas visual e auditivo.

Prata e colaboradores se debruçam, também, sobre as manifestações neurológicas em pacientes graves – como encefalopatia e delirium associados à sepse – e novos métodos de ensino, baseados em simulação realística, para graduandos em medicina. “Trazemos questões do dia a dia da pediatria para nosso grupo desenvolver pesquisas de fronteira, com acesso a tecnologias de ponta”, aposta o coordenador.