Da bancada à sala de aula

Fazer pesquisa translacional – um conceito bastante divulgado na área da saúde – significa unir equipes interdisciplinares para encurtar as distâncias entre a pesquisa básica realizada nas bancadas dos laboratórios e a prática do atendimento aos pacientes, por exemplo, no leito dos hospitais. Por isso, uma expressão usada para se referir a esse tipo de pesquisa é “da bancada ao leito”. Para o neurocientista Roberto Lent, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a mesma lógica pode ser aplicada às contribuições que a neurociência e outras áreas do conhecimento podem oferecer às políticas públicas na área da educação.

Durante a aula inaugural do programa de doutorado em ciências médicas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, na última quinta-feira (15/03), o pesquisador falou sobre como transpor a lógica “da bancada ao leito” para facilitar a transferência de conhecimento “da bancada à sala de aula”. Lent é coordenador geral da Rede Nacional de Ciência para Educação (CpE), uma iniciativa criada em 2014 e que reúne atualmente cerca de 100 cientistas brasileiros com interesse no tema.

“É inegável que o conhecimento gerado pela ciência aplicado à saúde é um sucesso”, disse Lent. “Hoje, observamos a queda da mortalidade e o aumento da expectativa de vida graças ao aumento dos investimentos em vacinas, fármacos, instrumentos cirúrgicos, próteses, técnicas diagnósticas etc. São benefícios sociais em todo o mundo, gerados pela pesquisa translacional em saúde”.

Na área da educação, no entanto, a relação entre ciência e serviços à sociedade não é tão estreita. Segundo o palestrante, as políticas públicas de ensino nunca foram atreladas ao conhecimento científico. Ele citou como exemplo uma controvérsia recente, relacionada à possibilidade de excluir das aulas de educação física dos programas do ensino médio. Para Lent, se, antes dessa tomada de decisão, os cientistas da área fossem consultados sobre a relevância da educação física para o aprendizado, responderiam prontamente que o exercício físico é fundamental.

Lent destacou pesquisas científicas que apresentam ferramentas computacionais para a melhoria do processo de leitura em pessoas transtorno de linguagem, como dislexia.

De fato, diversas evidências da neurociência sugerem que, quanto mais exercício um jovem faz, maiores suas chances de reter conhecimento. Em um modelo de pesquisa translacional em educação, não seria necessário testar uma nova diretriz (por exemplo, excluir as aulas de educação física de todas as escolas de ensino médio brasileiras) e esperar dez anos para observar que a medida piorou a performance escolar dos estudantes. “Intervenções baseadas em pesquisa podem ser mais eficazes e menos arriscadas”, completou o especialista.

 

Interdisciplinaridade

Além da neurociência, outros campos do conhecimento, como matemática, tecnologias digitais, técnicas de avaliação, psicologia e sociologia, também podem oferecer subsídios para a formulação de políticas educacionais certeiras. Embora recente no mundo inteiro, esse modelo de ciência translacional voltado à educação já começou a ser incentivado em países como Austrália e Estados Unidos. Na França, em janeiro de 2018, o neurocientista Stanislas Dehaene foi nomeado primeiro consultor do Conselho Científico para Educação, órgão criado pelo governo francês para ajudar professores e instituições a entenderem os mecanismos da aprendizagem e melhorar o sistema educacional no país.

Lent defendeu que o Brasil tem condições de assumir a dianteira na promoção da pesquisa translacional em educação e sua aplicação nas políticas públicas. Uma das ferramentas para isso é a rede CpE, que tem como objetivo mobilizar a sociedade a fim de chamar a atenção – e atrair investimentos – para projetos na área. Em um de seus primeiros projetos, a rede levantou todos os pesquisadores doutores atuantes no país, em todas as áreas do conhecimento, cujo trabalho tem interface com a educação. A partir daí, criou-se uma plataforma online de pesquisas sobre o tema, com o objetivo de fornecer dados úteis a educadores, cientistas e agências de fomento à pesquisa.