Delirium e seus desafios

Síndrome acomete cerca de 40% dos pacientes críticos e está associada à maior taxa de mortalidade. No Instituto D’Or, cientistas exploram alternativas para prevenção, diagnóstico e tratamento do problema.

Frequentemente observado em pacientes graves, o delirium é um comprometimento temporário do funcionamento cerebral que prolonga o tempo de internação, aumenta seu custo e pode levar à morte. Por isso, médicos intensivistas do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em colaboração com pesquisadores internacionais, vêm explorando alternativas capazes de reduzir o impacto do problema e melhorar a qualidade do tratamento oferecido ao paciente crítico. Coroando anos de pesquisa nessa linha, o líder do projeto, Jorge Salluh, publicou, com o italiano Nicola Latronico, da Universidade de Brescia, um guia prático para a assistência a pacientes com delirium. O artigo foi publicado na sessão “O que há de novo em terapia intensiva”, do periódico especializado Intensive Care Medicine.

Caracterizado por flutuações do status mental, falta de atenção, níveis alterados de consciência e pensamento desordenado, o delirium – palavra latina que não possui tradução para o português – está presente na rotina de unidades de terapia intensiva (UTIs), onde cerca de 40% dos pacientes apresentam o quadro. O índice sobe para até 80% entre pacientes que respiram com ajuda de aparelhos. Pesquisas sobre o tema desenvolvidas pelo IDOR apontaram que pacientes com delirium possuem risco de morte duas vezes maior que os demais, além de poderem apresentar sequelas cognitivas de longo prazo.

Perguntado sobre o que pode ser feito para mudar essa situação, Salluh é categórico: “existe muito a ser explorado”, afirma, referindo-se à melhoria do manejo do paciente com delirium. De acordo com o pesquisador, o conhecimento médico sobre o fenômeno ainda é baixo, e os instrumentos utilizados para seu diagnóstico não são adequados. Um levantamento realizado em UTIs de 47 países mostrou que, embora as unidades realizem monitoramento rotineiro de delirium, apenas 42% delas utilizam ferramentas de diagnóstico validadas pela comunidade científica internacional.

No caso de pacientes neurocríticos, isto é, que apresentam lesões cerebrais, como um acidente vascular cerebral (AVC) ou traumatismo cranioencefálico, o diagnóstico é particularmente desafiador, pois há fatores confundidores: como ter certeza de que as alterações cognitivas observadas, típicas do delirium, não estão sendo produzidas pelas lesões diretas no cérebro?

A dificuldade em separar as duas coisas faz com que grande parte dos estudos sobre delirium acabe excluindo os pacientes neurocríticos de suas amostras. No entanto, Salluh e colaboradores também mostraram que a avaliação e o monitoramento de delirium em pacientes neurocríticos pode ser realizada com sucesso, da mesma forma como é feita em outros tipos de pacientes. “Esperamos, com esses resultados, estimular que mais estudos sobre delirium sejam conduzidos em pacientes com lesão cerebral”, aponta o pesquisador.

Tratamento e prevenção

Numa revisão de literatura que incluiu mais de 30 anos de pesquisa sobre delirium, Salluh e sua equipe reuniram evidências de que o tratamento farmacológico é, muitas vezes, ineficaz para contornar o problema, reduzir o tempo de internação em UTIs ou diminuir a mortalidade dos pacientes. Por isso, a decisão entre medicar ou não pessoas com delirium é complicada. “Esse é um dilema do dia a dia de um intensivista”, explica o pesquisador. Foi pensando em auxiliar a tomada de decisão médica que Salluh e Latronico decidiram publicar um guia para o atendimento de pacientes que apresentam esse quadro.

Por outro lado, abordagens não farmacológicas, como mobilidade precoce e melhora do ambiente de UTI, podem trazer benefícios para os pacientes com delirium e devem, por isso, ser estimuladas. Uma intervenção não medicamentosa de comprovado sucesso é a aproximação de familiares ao leito da UTI. Em 2017, os pesquisadores exploraram os efeitos da política de visitação de uma UTI sobre o delirium em 286 pacientes. Ao dobrar-se o período de visitação de duas para quatro horas diárias, houve 50% de redução no número de pacientes com delirium, além da diminuição da duração do quadro e do tempo de internação.

Finalmente, os resultados das pesquisas parecem indicar também que a prevenção do aparecimento do fenômeno é a melhor estratégia para combater o delirium. O uso profilático de medicamentos antipsicóticos pode ter efeitos positivos, reduzindo o número de casos. Além disso, o monitoramento de dor, agitação e sedação e o aumento do engajamento familiar também vêm sendo associados à redução do delirium e do tempo que o paciente passa em ventilação mecânica.

Para Salluh, é importante que o conhecimento científico gerado por esses e outros estudos chegue até as equipes de intensivistas. “Assim eles poderão oferecer as abordagens mais eficientes frente ao delirium, aumentando a sobrevida dos pacientes e diminuindo o impacto do problema sobre o sistema de saúde”, conclui.