Desafios da comunicação da ciência

Em palestra no IDOR, jornalista Claudia Jurberg falou sobre como a imprensa e as mídias sociais podem ser usadas para aproximar a pesquisa científica e a sociedade.

Se, décadas atrás, veicular notícias e outros conteúdos a um público amplo era privilégio dos grandes meios de comunicação, atualmente, qualquer pessoa pode criar um site, um blog ou uma conta nas diferentes redes sociais e começar a publicar textos, vídeos ou fotos com muita facilidade. Esse novo contexto de comunicação traz desafios para os diferentes atores envolvidos na divulgação científica, incluindo os jornalistas e os pesquisadores em diferentes áreas do conhecimento. Na última quinta-feira (30/8), a jornalista Claudia Jurberg, da Fundação Oswaldo Cruz e da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esteve no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) para falar sobre como comunicar ciência e manter diálogo com os jornalistas nesse cenário.

Por um lado, explicou Jurberg, as mídias tradicionais, em especial as impressas, enfrentam uma grande crise. “A imprensa está derretendo. Temos 200 milhões de brasileiros, mas a circulação dos maiores jornais não chega a 50 mil exemplares”, apontou. Por outro lado, as redes sociais, como Facebook, Twitter, Pinterest, WhatsApp e outras, estão em ascensão e atingem milhões de pessoas. “Todo mundo tem a chance de ser repórter por um dia”, brincou a jornalista, referindo-se à produção de conteúdo para essas mídias.

Um problema crescente nesse cenário é a rápida disseminação de informações ou notícias falsas. “A verdade perde para o que circula”, afirmou Jurberg, destacando que a saúde é um dos temas mais populares desses boatos – o que, claro, pode ter consequências desastrosas para a população, uma vez que as fake news frequentemente influenciam as pessoas a mudarem hábitos e tomarem decisões sobre os cuidados com a própria vida.

Outro desafio levantado pela palestrante foi a dificuldade que encontram as redações dos veículos da mídia tradicional, que estão com equipes cada vez mais enxutas para dar conta da produção de notícias. Cortes recentes nos times de reportagem levaram, por exemplo, à demissão de repórteres especializados em ciência. O resultado é que o tema acaba sendo trabalhado por jornalistas que não têm experiência na área. “Eles recebem uma enxurrada de pautas e não sabem avaliar quais são de qualidade”, contou Jurberg.

Dicas práticas

Apesar do cenário desafiador, Jurberg encoraja os cientistas a manterem diálogo aberto com a mídia para divulgar suas pesquisas. Por isso, destacou algumas dicas práticas. Segundo ela, o primeiro passo para quem quer divulgar sua pesquisa científica é identificar quem essa divulgação pretende alcançar, isto é, para que público se gostaria de falar. Só com essa definição é possível pensar no melhor meio de comunicação para divulgar o trabalho. Com tipo específico de veículo em mente, o pesquisador e o serviço de assessoria de imprensa de sua instituição podem produzir, juntos, uma sugestão de pauta que será enviada às redações.

Para quem vai conceder entrevistas a jornalistas, Jurberg sugeriu começar a conversa por aquilo que os repórteres em geral mais valorizam, isto é, os resultados da pesquisa – são eles que vão fisgar a atenção da mídia para o trabalho científico. Também é importante ser preciso e claro ao mesmo tempo, evitando jargões, siglas e termos muito técnicos, uma vez que se está falando com não especialistas. “O desafio é usar um repertório familiar para explicar algo que não é familiar”, explicou a palestrante.

Ela destacou, ainda, que os pesquisadores precisam desmistificar a ideia de que o público é ignorante e precisa ser educado pelos cientistas, um conceito que, entre os especialistas em comunicação científica, é chamado de Modelo de Déficit. Segundo Jurberg, é preciso considerar que o público traz outros conhecimentos, e interpreta o que lê ou ouve à luz dessa bagagem.

Para a jornalista, faz-se necessário um esforço, também, para desmistificar e humanizar a figura do cientista e da própria ciência no imaginário popular. “Precisamos mostrar que a ciência não é feita de verdades absolutas”, disse, “inclusive para promover o engajamento do público e a percepção da importância da ciência para nosso dia a dia”.