Diálogos sobre o câncer

Especialista pondera como os meios de comunicação podem auxiliar a espalhar mensagens úteis para a prevenção e o tratamento da doença.

Em 2018, estima-se que tenham ocorrido 9,6 milhões de mortes em decorrência do câncer no mundo, o que representa um sexto de todas as causas de fatalidade. O que nem todo mundo sabe é que algo entre 30 e 40% das mortes pela doença poderiam ser prevenidas com medidas relativamente simples, como mudanças no estilo de vida e realização de atividades físicas. Na opinião da oncologista Clarissa Baldotto, diretora do Núcleo de Integração Oncológica da Oncologia D'Or e doutoranda do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), a mídia pode contribuir para espalhar essa (boa) notícia.

Durante o VI Congresso Internacional Oncologia D’Or, que aconteceu nos dias 9 e 10 de novembro no Rio de Janeiro, Baldotto, que também é secretária de Comunicação Social da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), participou de mesa-redonda sobre as relações entre câncer e mídia e concedeu esta entrevista ao portal IDOR.

Quais são os principais conceitos errados ou deturpados que a mídia brasileira ajuda a espalhar sobre o câncer? Durante o congresso, você mencionou a ideia de que o câncer é uma doença só – embora, na verdade, haja tanta diferença entre os tipos de tumores.

Não sei se eu diria que são conceitos errados, mas são mensagens incompletas que os pacientes recebem. Um pouco disso se deve ao desconhecimento mesmo. Em parte, estamos falando também daquilo que é vendável, que o paciente quer ouvir.

Eu destacaria principalmente abordar tratamentos que ainda são muito experimentais como se eles já estivessem disponíveis e com eficácia comprovada. Muitas vezes, fala-se sobre um tratamento que está começando a ser testado, às vezes em animais, e noticia-se como se fosse um tratamento milagroso.

O segundo equívoco é em relação a esse "milagre". Todo paciente quer ouvir que aquele remédio vai resolver todos os problemas dele, que é a cura para tudo. Mas isso não existe na medicina, especialmente para tratar câncer, que é uma doença crônica. Em geral, os tratamentos vão agregando benefícios e aumentando a qualidade e o tempo de vida, mas nem todos eles são tratamentos curativos.

E o terceiro ponto você já citou. O câncer não é uma doença só, há uma complexidade inerente. Então, uma notícia não pode dar a entender que certo tratamento serve para tudo e que todos os pacientes com a doença vão se beneficiar da mesma forma. Não é uma mensagem muito fácil de passar, mas acho que é importante deixar claro, para não criar expectativas que não são reais.

Dra. Clarissa Baldotto

Você disse que o câncer não é uma doença aguda, mas crônica, com a qual se pode conviver – como um hipertenso convive com sua hipertensão. Pode falar um pouco mais sobre isso? Não parece muito fácil pensar no câncer dessa maneira. A primeira coisa que se pensa quando se recebe um diagnóstico é se existe uma maneira de se livrar do tumor...

O câncer é uma doença considerada crônica, ou seja, embora se fale de cura, a cura, de fato, não existe. Quando um paciente opera e fica curado, para nós, oncologistas, ele está num controle, sem a doença estar se manifestando, mas existe uma chance de ela reaparecer. E o paciente que tem uma doença incurável pode, sim, conviver com a doença. Há alguns tipos de tumores com que o paciente consegue viver muitos anos, inclusive com metástase, como câncer de próstata e de mama.

Nem todos os tumores permitem isso. Mas o que a gente vem observando ao longo do tempo, e com os avanços na medicina, é que a tendência dos novos tratamentos é que os pacientes que têm doença mais avançada e já recebem o diagnóstico com metástase, embora não fiquem curados, passem a conviver com a doença de uma forma cada vez mais tranquila, levando uma vida normal. Esta é a busca atual da oncologia: que as pessoas consigam controlar a doença, mais do que fazer a doença desaparecer. É uma realidade mais possível.

O paciente, muitas vezes, entende que o benefício só vem por meio da cura, mas isso não é verdade. Procuramos explicar que, embora não haja cura, isso não impede o paciente de levar uma vida normal, conviver com a família, trabalhar. É isso o que a gente quer. É como vive um diabético, um hipertenso – 100 anos atrás, esses pacientes teriam uma qualidade de vida muito pior ou uma vida muito mais difícil do que a que levam hoje, embora não sejam curados.

A maioria das pessoas identifica que fumar é um fator de risco para ter câncer de pulmão, e a mensagem de que deixar o cigarro de lado ajuda a prevenir a doença é, hoje, bem disseminada. Por outro lado, pouca gente relaciona a alimentação saudável, a prática de exercícios físicos e o sexo seguro com prevenção de câncer.

É verdade. Hoje, as pessoas sabem muito sobre a relação entre cigarro e câncer, sobre a importância de parar de fumar ou de nunca fumar. E elas até sabem mais sobre a importância da alimentação saudável e do exercício físico, mas não correlacionam isso com a prevenção do câncer – esses hábitos são popularmente mais relacionados à prevenção de problemas do coração. Mas são muito importantes também na prevenção de muitos tipos de câncer, incluindo intestino e mama. Provavelmente, não houve uma divulgação tão intensa dessa associação quanto a que houve em relação ao cigarro. Então, se tivermos que pensar nos próximos passos, a colaboração da mídia é importante para esclarecer a relação entre hábitos de vida saudável e câncer, para que a população se torne mais consciente desses benefícios.

Alguns médicos avaliam que, para muitos pacientes, pode ser mais fácil usar medicamentos do que mudar hábitos de vida. Você concorda com essa afirmação? O que os profissionais de saúde podem fazer para incentivar seus pacientes a adotar hábitos mais saudáveis?

Sim, isso é muito claro e eu vejo na prática. Se você pede para usar um medicamento, as pessoas obedecem e assumem aquilo como uma regra, mas, quando se fala de mudar hábitos de vida, e isso não só para câncer, mas para outras doenças, como diabetes e hipertensão, orientações como comer menos sal ou menos açúcar e fazer exercícios são mais difíceis de as pessoas obedecerem.

É mais difícil para todos nós, porque exige uma constância, uma força de vontade maior do que tomar um comprimido. Mas também acho que existe um papel do médico que ainda não é contemplado: não adianta falar apenas "faça exercício físico" ou "coma menos sal". Para alguns pacientes, é preciso que você seja mais objetivo, por exemplo, especificando que tipo de exercício físico e com que frequência eles devem fazer, como numa prescrição. Talvez tornar essas recomendações mais objetivas, ou mesmo encaminhar para especialistas em exercício físico, ajude.

Um estudo americano sobre parar de fumar perguntou aos médicos como eles orientavam os pacientes. A maioria dizia apenas "pare de fumar". Mas, hoje, a gente sabe que, sem um acompanhamento, uma prescrição de como parar de fumar, a chance de o paciente conseguir é muito menor. Provavelmente isso também acontece com o exercício físico e com a dieta.

De que maneira você acredita que a mídia poderia contribuir para a disseminação de informações de qualidade sobre o câncer?

É fundamental que a mídia procure as fontes corretas e que tente se ater o máximo ao que de fato foi dito. E que tente colocar nas matérias um pouco da complexidade dessa doença. Não adianta simplificar ao extremo, porque, às vezes, essa simplificação traz desinformação. É muito comum eu receber um paciente que não tem a menor indicação de imunoterapia, por exemplo, e que não quer fazer o tratamento tradicional, que tem eficácia comprovada, porque leu no jornal que a imunoterapia é o melhor tratamento do mundo. Então, mesmo que se dê uma boa notícia sobre um novo tratamento, é importante, em algum momento, deixar claro que não necessariamente ele vai servir para todo mundo ou em todas as situações, e que o paciente deve se informar com o médico sobre o melhor tratamento para o caso dele.

Que outras mensagens a mídia poderia ajudar a espalhar?

Disseminar informações de prevenção – a importância de fazer exames ou de mudar hábitos de vida – é muito importante, porque tem um grande impacto. E é importante também disseminar mais informações sobre o acesso a medicamentos, para que os pacientes busquem, com os médicos, os tratamentos adequados.