Dor e União

Estudo do IDOR avalia o papel vinculativo das práticas dolorosas em rituais religiosos

Segundo diversas vertentes das ciências sociais e humanas, os rituais são fenômenos comumente caracterizados pela conexão entre indivíduos que compartilham uma mesma filosofia social. Esses fenômenos costumam envolver gestos, falas, formalidades, pensamentos e ações que estão ligadas a alguma crença, adoração ou tradição popular. Os rituais servem como uma maneira de manter relações com o sagrado, ou com outros aspectos que envolvam sentimentos de afeto ou pertencimento social ligados a um conceito simbólico, isto é, uma filosofia ou uma ideologia, havendo rituais relacionados a religião, cultura e até mesmo a times de futebol ou outras identidades sociais que podem ser compartilhadas por um conjunto pessoas.

Apesar de haver inúmeras práticas rituais, é comum encontrarmos aspectos de atividade coordenada nesses fenômenos, como é o caso do canto, danças e orações executadas em conjunto pelos seus participantes. Nos casos referentes a ritos religiosos, especialmente, também são identificadas frequentes ocorrências de atividades que envolvem dor ou desconforto corporal, como mutilações, jejuns prolongados e até amputações. Com interesse particular em comparar os efeitos simbólicos da dor e da atividade coordenada na percepção de participantes de rituais, um estudo realizado com participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) investigou um evento religioso na Tailândia, levando igualmente em consideração as diferenças de gênero observadas nessas concepções.

O evento observado foi o Festival Vegetariano na Tailândia, que ocorre anualmente durante 10 dias e é reconhecido por seus rituais de meditação e perfuração facial como formas de purificação espiritual. Ao acompanhar o festival, os pesquisadores entrevistaram 137 participantes e categorizaram aspectos ritualísticos que envolveriam dor (desconforto corporal), ações coordenadas ou os dois aspectos simultâneos durante as práticas do evento. Posteriormente, os participantes também responderam a perguntas sobre o que sentiam a partir de cada experiência.

Curiosamente, foi observado que, tanto para os participantes homens como para as mulheres, as atividades que envolviam dor, como as perfurações faciais e caminhadas na brasa, também se caracterizavam como as práticas que mais emergiam sensações de pertencimento e de conexão com o templo religioso o qual cada um representava. As atividades apenas coordenadas, como cantos e orações coletivas, não representaram para os participantes uma sensação de união maior do que aquela percebida nas práticas que envolviam desconfortos corporais. Apesar disso, é interessante observar que homens sentiram mais pertencimento de grupo em práticas sincronizadas de inflição de dor, onde todos passavam, em grupo, por esse ritual; já as mulheres sentiram maior identidade com os outros participantes a partir de rituais onde a dor era aplicada de forma individualizada para cada pessoa, sem configurar uma prática coletiva.

Em outras palavras, os pesquisadores confirmaram que práticas ritualísticas que envolvem dor e desconforto físico são mais eficientes em despertar sentimentos de pertencimento a um grupo ou a uma instituição social. O interesse de estudos como este é buscar princípios sociais que possam ser observados em qualquer sociedade ou cultura, encontrando, assim, pontos em comum que possam ser trabalhados socialmente e cientificamente, de maneira universalizada.

(Photo by Joshua Newton on Unsplash)