Inteligência artificial e o futuro da radiologia

Impacto da inovação tecnológica sobre a especialidade foi tema de debate no IDOR. Visão geral é de que a tecnologia irá beneficiar médicos e pacientes.

Por um lado, excelentes ferramentas de suporte a tomadas de decisão. Por outro, uma falsa ideia de ameaça à carreira. A invasão tecnológica na área da radiologia vem assustando jovens profissionais desavisados, e entusiasmando aqueles que entenderam que a especialidade tenderá a se fortalecer com os avanços da inovação. No último dia 12 de dezembro, o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) recebeu diversos profissionais da área para uma discussão sobre o radiologista do futuro, com apresentação de Eudemberg Silva, diretor de pesquisa e desenvolvimento da GE.

“A radiologia sempre esteve em transformação, com a vinda da tomografia computadorizada, da ressonância magnética e do ultrassom. Alguns profissionais acabaram ficando nos métodos antigos, outros evoluíram”, afirmou o neurorradiologista Luís Alberto Souza, da Rede D’Or São Luiz, um dos debatedores da sessão. Hoje, observa-se transformações mais voltadas para softwares e aplicativos, que se integram cada vez mais à rotina médica.

Essas mudanças acompanham a revolução digital que está em curso em vários outros setores. A indústria da publicidade, por exemplo, já utiliza o aprendizado de máquina (do inglês machine learning) para direcionar campanhas a partir do padrão de buscas de usuários da internet. Trata-se de algoritmos sofisticados capazes de identificar padrões em grandes quantidades de dados, e que também podem ser usados no universo da saúde: de fato, o aprendizado de máquina já auxilia o monitoramento de pacientes e norteia a conduta médica em várias especialidades, reduzindo a mortalidade.

Segundo alguns especialistas da área, a radiologia compreende o principal campo da medicina para a utilização desses algoritmos. Atualmente, diversas aplicações da metodologia já alcançaram taxas de acerto satisfatórias, incluindo a identificação de nódulos pulmonares por imagens de tomografia computadorizada e o diagnóstico de tuberculose utilizando radiografias, entre outros. Isso não significa, no entanto, que os radiologistas devam se preocupar com a extinção da profissão – ao contrário, a tecnologia tende a fortalecer a função do radiologista como detentor do conhecimento. Alair Sarmet Santos, presidente eleito do Colégio Brasileiro de Radiologia, que também participou como debatedor, destacou: “o profissional de radiologia não irá acabar, mas certamente irá mudar”.

Tecnologia a serviço de profissionais e pacientes

Médicos radiologistas frequentemente lidam com uma grande quantidade de exames para avaliar. Muitas vezes, o alto volume de exames impede que os laudos sejam finalizados, o que gera atrasos nas entregas. Como forma de contornar este problema, Eudemberg citou exemplos de iniciativas internacionais que se valem da inteligência artificial para criar filas de prioridades para exames radiológicos. O algoritmo encaminha as imagens possivelmente patológicas para o início desta fila, enquanto exames com maior probabilidade de não conterem alterações perdem a vez.

Para Jaime Araújo de Oliveira Neto, radiologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Rede D’Or São Luiz, os avanços tecnológicos representam uma mudança na visão do papel do profissional: “essas mudanças irão nos levar de volta para mais perto da equipe médica, do paciente e da família, participando da conduta médica”, apostou.

Por fim, os especialistas ressaltaram que a tecnologia será fundamental para lidar com os elevados custos da saúde. No Brasil, os gastos nesta área equivalem a cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto, nos Estados Unidos, o valor chega a 18%. Tais indicadores, associados ao aumento da população idosa – que traz a previsão de um impacto ainda maior sobre o sistema de saúde no futuro –, reforçam a necessidade da tecnologia para tornar a medicina mais acessível. “Não podemos esquecer que o paciente é o centro desse universo”, ressaltou Eudemberg.

O futuro da radiologia vem ganhando destaque nos últimos anos nos principais fóruns médico-científicos ao redor do mundo. A discussão que ocorreu no Instituto D’Or foi baseada em questões levantadas durante o encontro anual da Sociedade Radiológica Norte-Americana (RSNA), que aconteceu em Chicago de 25 a 30 de novembro. O evento, com o slogan “A radiologia do amanhã, hoje”, teve a inteligência artificial como tema evidente em toda sua agenda. Durante a cerimônia de abertura do encontro, a presidente da instituição, Vijay M. Rao, destacou como todas essas mudanças serão benéficas para o profissional da área e para o paciente.