Microbiota, o tema do momento

O corpo de um homem adulto carrega, aproximadamente, um quilo de micróbios. Se o número lhe parece excessivo, imagine o seguinte: se contássemos todas as células do corpo humano, veríamos que apenas 10% são, de fato, humanas, enquanto 90% pertencem a bactérias e outros microrganismos aos quais damos abrigo. O conjunto desses pequenos seres que habitam nosso corpo é chamado microbiota e, embora os pesquisadores já saibam como quantificá-la e aferir sua biodiversidade, a ciência está apenas começando a entender como esses microrganismos têm impacto sobre a vida e a saúde humanas. O estado atual das pesquisas nessa área e as perspectivas futuras desse ramo da ciência foram tema de debate na última quinta-feira (07/12), durante a I Jornada de Pós-Graduação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

A formação da microbiota de uma pessoa começa ainda durante a sua gestação, quando o feto começa a entrar em contato com a microbiota materna. Porém, um momento determinante para a colonização do corpo por essas bactérias é o nascimento: durante o parto vaginal, o bebê entra em contato com microrganismos que colonizam a região da vagina e do períneo da mãe; enquanto, em uma cesariana, o recém-nascido tem contato apenas com as bactérias da pele materna. O resultado, apontam as pesquisas, são microbiotas substancialmente diferentes.

Já após o parto, o principal modulador da microbiota humana é o leite materno, pelo qual o bebê também recebe microrganismos que vão colonizar seu sistema digestório. Após o período de lactação, outras formas de alimentação e diferentes atividades do dia a dia também dão sua contribuição para a formação da microbiota. “Diz-se que o microbioma afeta tudo, e tudo afeta o microbioma”, lembra o pediatra Arnaldo Prata Barbosa, coordenador de pesquisa em pediatria do Instituto D’Or. Por microbioma entende-se a interação entre a microbiota e as células do hospedeiro – um conceito mais abrangente, portanto, que o conjunto de microrganismos que habitam o corpo humano.

Mas, afinal, qual a importância de todo esse conjunto de bactérias e outros seres para o humano que os hospeda? A ciência ainda busca respostas para essa pergunta, mas já encontrou algumas. Por exemplo, alguns estudos já relacionam a presença da bactéria Helicobacter pylori a um menor risco de desenvolver asma, pontuou o gastroenterologista Heitor Pereira de Souza, pesquisador do Instituto D’Or. Ele também explicou que a ingestão frequente de antibióticos tem impacto sobre a microbiota e pode desencadear o desenvolvimento de doenças como a doença inflamatória intestinal e o câncer colorretal.

No campo da neurologia, uma das relações mais estudadas é aquela que existe entre a microbiota e a esclerose múltipla. “Os fatores de risco para esclerose múltipla também são fatores de risco para a alteração da microbiota humana”, disse o neurologista Gabriel Rodríguez de Freitas, outro pesquisador do Instituto D’Or. “Hoje, acredita-se que a microbiota possa ser um gatilho para essa doença”. Além disso, cientistas investigam o impacto da microbiota sobre o desenvolvimento cognitivo humano e o aparecimento de doenças como Parkinson.

Mas a lista de possibilidades não para por aí. “Pessoas que usaram muitos antibióticos na infância têm mais risco de desenvolver obesidade na vida adulta”, observou o médico intensivista Fernando Augusto Bozza, coordenador de pesquisa em medicina intensiva do Instituto D’Or, lembrando que o diabetes também pode ter relação com a microbiota.

Este é, portanto, um vasto campo de pesquisa para as próximas décadas. Desvendar o papel real da microbiota na saúde humana, no metabolismo de medicamentos e no desenvolvimento neurológico são alguns caminhos possíveis para a ciência básica. Já na ciência aplicada, as possibilidades incluem o desenvolvimento ou aperfeiçoamento de técnicas que permitem restaurar a microbiota que foi, por algum motivo, danificada – dois exemplos de procedimentos que já estão sendo investigados são o transplante de fezes e a exposição de bebês que nasceram por cesariana às bactérias da vagina da mãe.

 

Trocas, ciência e arte

Realizada na sede do Instituto D’Or no Rio de Janeiro, a Jornada de Pós-Graduação incluiu, também, a apresentação dos trabalhos de doutorado de alunos do instituto e de instituições parceiras. Uma das pesquisas foi apresentada pela hepatologista Elizabeth Balbi, que busca traçar, no Brasil, um panorama do carcinoma hepatocelular, a segunda maior causa de morte por câncer no mundo. Ela está analisando 10 anos de dados coletados pelo banco de informações do Sistema Único de Saúde e já observou, por exemplo, que houve um crescimento na incidência da doença entre 2005 e 2015.

Câncer também é o tema de estudo da oncologista Clarissa Baldotto, cujo trabalho procura analisar a sobrevida e a qualidade de vida de pacientes com câncer de pulmão tratados na rede privada de saúde. Combinando fatores como o custo dos tratamentos e benefícios para os pacientes, ela espera, no final da pesquisa, poder propor novas abordagens e práticas para os hospitais particulares.

Já o físico e matemático Rogério Emygdio trabalha na área conhecida como sistemas dinâmicos, que busca simular matematicamente situações reais. Seu objetivo é criar modelos matemáticos e fazer simulações em computador da dinâmica dos agentes multirresistentes presentes nas UTIs hospitalares. “Entender como vários fatores se combinam nos cenários de infecção hospitalar nas UTIs pode ajudar a reduzir a incidência desses episódios”, aposta.

Além das apresentações desses e outros alunos, a Jornada contou com a participação das artistas plásticas Liana Nigri e Marcia Albuquerque. Elas foram parte do Córtex, projeto de ciência e arte realizado em parceria entre o Instituto D’Or e ArtBio, cujo objetivo era acompanhar as atividades de pesquisa do instituto e criar obras de arte inspiradas nelas. “Ciência e arte têm muitos pontos em comum, a começar por muita pesquisa, muita imersão nos temas, abrir mão de muitas coisas pela sua pesquisa”, avalia Albuquerque.

A artista plástica Marcia Albuquerque falando sobre como enxerga os mundos da arte e ciência