Mindfulness: guia para profissionais de saúde

Gil Sant’Anna 

Colaborador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Leciona Habilidades Socioemocionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Certificado em Treinamento em Compaixão pela Universidade Stanford.

O que é mindfulness?

A prática de mindfulness tem sido proposta para reduzir o estresse e o desgaste entre os profissionais de saúde por meio de uma série de caminhos ligados que trazem a filosofia à prática.

Historicamente, mindfulness é baseada em uma prática oriental milenar chamada vipassana, construída sobre três pilares: sila, samadhi e pañña - moralidade, concentração e sabedoria. Mindfulness foi baseada especificamente em um aspecto de samadhi, o sati (1).

O microbiologista Jon Kabat-Zinn é um dos grandes responsáveis pela popularização do mindfulness e sua definição é a seguinte: "Mindfulness é a consciência que surge através da atenção intencional no presente momento e sem julgamento para experiência que se desdobra de momento a momento" (2). A atenção é guiada por vários estímulos, incluindo a respiração, sensações corporais, percepções (visão, sons), assim como cognição e emoção.

Na literatura científica, atualmente, não há um consenso sobre a definição de mindfulness. Alguns grupos de pesquisa tratam mindfulness de acordo com a definição de Jon Kabat-Zinn, enquanto outros tratam como traço de personalidade, técnica ou forma de viver.

Mindfulness é meditação?

A meditação é meio primário através do qual mindfulness (atenção plena) é cultivada, porém existem outras maneiras de cultivar esse estado sem meditação. Diferentes formas de meditação, como a meditação transcendental ou focada no objeto, tendem a ser distinguidas em termos: 

(a) do tipo de atenção obtida;

(b) das ações tomadas nos processos cognitivos e

(c) dos objetivos subjacentes da prática.

Mindfulness é diferente, pois permite emergir nos praticantes um estado de "atenção fluida" ao invés de manter o foco em algum objeto específico ou mantra. Cognições são observadas e aceitas como são, sem serem manipuladas. Deixam-se de lado as expectativas de modo a descondicionar a automaticidade que tipicamente domina o processamento cognitivo (3).

O que é o protocolo de Redução de Estresse Baseado em Mindfulness?

Redução de Estresse Baseado em Mindfulness (MBSR) é um programa psicoeducacional desenvolvido por Jon Kabat-Zinn e colegas no Centro Médico da Universidade de Massachusetts. Com duração de oito semanas, o programa consiste de aulas de 1h a 2,5h por semana. Os participantes aprendem diferentes tipos de práticas meditativas, que são aplicadas na aula, em casa e em atividades do cotidiano, como ao comer, dirigir, andar, lavar os pratos e interagir com os outros.

Os elementos-chave do programa incluem:

(a) formato do grupo;

(b) ênfase em uma orientação sem objetivo;

(c) expectativa de alívio (ou efeito placebo);

(d) senso de engajamento ativo no processo e responsabilidade pelos resultados;

(e) características de demanda (comprometimento significativo de tempo para práticas fora da sala de aula);

(f) variação de técnicas de meditação (bodyscan, sitting, walking meditation e hatha yoga);

(g) material didático (por exemplo: a relação do estresse com a doença);

(h) duração finita (longa o suficiente para praticar as habilidades e curta o suficiente para não tornar o grupo dependente dos encontros);

(i) perspectiva de longo prazo (a prática continuada é encorajada depois que o grupo termina).

Diversos estudos controlados têm demonstrado a eficácia do MBSR com populações clínicas para condições como dor crônica e outras doenças (ex.: câncer) assim como transtornos psiquiátricos, como ansiedade generalizada (4-10). 

Na última década, um número menor de pesquisadores começou a olhar para populações não clínicas, como profissionais de saúde (11).

No Brasil, um dos primeiros programas de MBSR será oferecido pelo Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), da Rede D'Or São Luiz, no Rio de Janeiro, com início previsto para agosto de 2017.

Em quais situações os profissionais de saúde podem usar o mindfulness?

É útil para os grupos de profissionais praticarem como uma forma de reduzir o burnout e como forma de ajudar os pacientes por meio de uma habilidade de responder às situações de forma mais consciente, menos reativa.

Ainda que ela possa ajudar a diminuir o estresse a qualquer momento, vale enfatizar que mindfulness tem se mostrado altamente eficaz como estratégia preventiva, ao incorporar sessões de meditação mindfulness no cotidiano.

Existe alguma contraindicação ou situações particulares em que mindfulness não é indicada?

Mindfulness não é panaceia, como anunciado pelas mídias populares. Mindfulness também não é para todos - pode haver efeitos negativos, especialmente se alguém tiver um trauma anteriormente não resolvido. Mindfulness pode piorar o cenário e ter um efeito significativamente negativo sobre a pessoa.

A abordagem também não é recomendada para pessoas com psicose ou outros transtornos mentais agudos. Importante ressaltar que essa mesma restrição se aplica à técnica milenar vipassana. Portanto, é fundamental o acompanhamento da prática por um instrutor certificado.

Referências

1. Håkan N; Ali K. From Buddhist sati to Western mindfulness practice: A contextual analysis. Journal Of Religion & Spirituality In Social Work: Social Thought 2016; 35:7-23.

2. Kabat-Zinn J. Mindfulness-based interventions in context: past, present, and future. Clinical Psychology: Science and Practice 2003;10:144–56.

3. Salmon P, Sephton S, Weissbecker I, Hoover K, Ulmer C, Studts JL. Mindfulnessmeditation in clinical practice. Cognitive and Behavioral Practice 2004;11:434–46.

4. Huss DB, Baer RA. Acceptance and change: the integration of mindfulness basedcognitive therapy into ongoing dialectical behavior therapy in a case of borderline personality disorder with depression. Clinical Case Studies 2007;6:17–33.

5. Brown KW, Ryan RM. The benefits of being present: mindfulness and its role inpsychological well-being. Journal of Personality and Social Psychology 2003;84:822–48.

6. Kaplan KH, Goldenberg DL, Galvin NM. The impact of a meditation-based stressreduction program on fibromyalgia. General Hospital Psychiatry 1993;15:284–9.

7. Goldenberg DL, Kaplan KH, Nadeau MG, Brodeur C, Smith S, Schmid HC. A controlled study of a stress-reduction, cognitive-behavioral treatment program in fibromyalgia. Journal of Musculoskeletal Pain 1994;2:53–66

8. Williams JMG, Teasdale JD, Segal Z, Soulsby J. Mindfulness-based cognitive therapy reduces over general autobiographical memory in formerly depressed patients. Journal of Abnormal Psychology 2000;109:150–5.

9. Speca M, Carlson LE, Goody E, Angen M. A randomized, wait-list controlled clinical trial: the effect of a mindfulness meditation-based stress reduction program on mood and symptoms of stress in cancer outpatients. Psychosomatic Medicine 2000;62:613–22.

10. Randolph PD, Caldera YM, Tacone AM, Greak ML. The long-term combined effects of medical treatment and a mindfulness-based behavioral program for the multidisciplinary management of chronic pain in west Texas. Pain Digest 1999;9:103–12.

11. Cohen-Katz JC, Wiley SD, Capuano T, Baker MA, Shapiro S. The effects of mindfulness-based stress reduction on nurse stress and burnout, part II. Holistic Nursing Practice 2005;19:26–35.

Fonte: E-SAÚDE 25/07/2017