Novo alvo contra a leucemia

Estruturas lipídicas presentes na membrana celular podem ser a chave para o tratamento do câncer que prejudica a formação de células sanguíneas, diz hematologista da Oncologia D’Or.

Leucemia é um tipo de câncer que atinge os tecidos responsáveis pela formação de células do sangue. Em particular, a leucemia mieloide aguda (LMA) – mais comum em adultos do que em crianças – é caracterizada pelo rápido crescimento de células malignas que se acumulam na medula óssea e prejudicam a produção de células normais. Progressivamente, a doença se espalha também pelo sangue periférico, isto é, que circula pelo corpo. "São doenças em que a gente ainda tem uma necessidade médica não atendida muito grande, porque os resultados de tratamento ainda estão muito aquém do esperado com as drogas quimioterápicas convencionais", alertou o hematologista Eduardo Rego, da Oncologia D’Or, em visita nesta quinta-feira (27/9) ao Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). Em busca de tratamentos mais eficazes, ele decidiu investigar o possível papel das jangadas lipídicas (do inglês lipid rafts) no combate à doença.

As jangadas lipídicas, tema ao qual Rego vem se dedicando nos últimos dez anos, foram descritas no final da década de 1990. “Antes, acreditava-se que a distribuição das proteínas na membrana celular era aleatória”, explicou. Então, há cerca de 20 anos, descobriu-se agrupamentos de gordura, lembrando jangadas que flutuam na membrana plasmática, que têm atuação importante na interação entre proteínas. "As jangadas lipídicas são muito importantes para a sinalização, tanto na célula normal quanto na célula leucêmica", esclarece o pesquisador.

Apoptose (morte celular), regulação da quantidade de cálcio no interior da célula e migração celular são exemplos de funções em que os lipid rafts estão envolvidos nas células normais. Em células tumorais, as jangadas lipídicas estão envolvidas, por exemplo, no processo de metástase, pois têm relação com a invasão dos tecidos pelas células cancerosas.

Em um experimento realizado em laboratório, Rego e sua equipe demonstraram que as células leucêmicas são particularmente sensíveis à inibição da sinalização por lipid rafts. Assim, levantaram a possibilidade de tê-los como alvo em novas alternativas terapêuticas contra a doença. Nos últimos anos, a equipe de Rego – que também é professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo – pesquisou fatores bioquímicos e genéticos para comprovar essa hipótese.

O grupo também investigou a eficácia de alquilfosfolípides, em particular um composto chamado ODPC, que atua diretamente sobre os lipid rafts, para combater células cancerosas, em ensaios in vitro com linhagens provenientes de pacientes com leucemia mieloide aguda e células-tronco hematopoiéticas e epiteliais saudáveis. “Esse composto é interessante porque ele parece ter algum grau de especificidade, alvejando principalmente as células leucêmicas”, celebra. “Hoje, temos um modelo que considero bastante promissor para o tratamento das leucemias”, aposta.