O livro é para crianças, mas é coisa séria

Dia 18 de abril comemoramos o Dia Nacional do Livro Infantil, mas o gosto pela leitura na infância costuma trazer benefícios para uma vida inteira.

Para muitos, é apenas um primeiro contato com a leitura, ou uma ferramenta de alfabetização na escola, mas a verdade é que os livros infantis nos acompanham muito além da nossa infância. As leituras constituem nosso imaginário e nos ensinam a lidar com problemas e questões emocionais desde o início do nosso bê-a-bá. Os livros também oferecem grande estímulo ao gosto pelos estudos e constituem peça fundamental em nossa formação como cidadãos críticos.

Segundo o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), em 2018, cerca de 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos foram categorizados como analfabetos funcionais, isto é, pessoas que mesmo quando capazes de decodificar os sons das letras, ainda não demonstram uma interpretação razoável do texto que leem. A mesma pesquisa também revela que o alfabetismo (leitura crítica e proficiente) é um processo contínuo ao longo da vida, que na maioria dos casos também vai influir e ser influenciado pelo nível de escolaridade dos indivíduos.

O incentivo que os livros infantis trazem para as crianças é essencial para a formação do prazer pela leitura, que pode se tornar um hábito saudável para o resto da vida. Segundo Jane Corrêa, psicóloga do Instituto de Psicologia da UFRJ, os benefícios dessa prática na infância não se limitam ao enriquecimento vocabular e didático, mas constituem uma experiência múltipla, que é simultaneamente cognitiva, racional, criativa e emocional para as crianças, ajudando-as a lidar de forma mais autônoma com os próprios problemas e limitações.


Dificuldades de aprendizagem

Dentre os maiores desincentivos à leitura na infância, encontramos as dificuldades de aprendizagem, questão que muitas vezes não é devidamente diagnosticada e faz com que a criança se desinteresse pela leitura e pelos estudos, por se crer incapacitada e diferente dos outros. “Quando uma criança adequadamente estimulada não desenvolve interesse pelos livros infantis, é necessário descartar a presença do Transtorno de Leitura, também conhecido como Dislexia. Este transtorno pode ocorrer em ambos os sexos e pode passar algum tempo sem diagnóstico e, pior ainda, sem o tratamento necessário”, declara o Dr. Paulo Mattos, coordenador de neurociência do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e professor da UFRJ.

A dislexia não está em nada relacionada com a inteligência da criança, mas sim com o processamento de informações, que é diferente no caso da memorização das regras da escrita, por exemplo, o que faz da leitura uma atividade muito laboriosa para os disléxicos, desestimulando o interesse natural pelos livros. O Dr. Paulo Mattos ainda acrescenta que a dislexia é muitas vezes confundida com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), outra dificuldade de aprendizagem, mas neste último caso a desatenção ocorre em quase todas as situações, enquanto na Dislexia a desatenção ocorre quase exclusivamente durante a leitura e o estudo.

A psicóloga Jane Corrêa insiste que nos casos de dificuldade de aprendizagem a leitura deve ser ainda mais estimulada, não como obrigação, mas como prazer. Para ela e para as crianças com quem trabalha, a leitura é também um ato de empoderamento, e quando as crianças com dificuldades conseguem concluir um livro, por mais simples que seja, o valor simbólico dessa conquista é imensamente maior para elas, o que pode voltar a estimular o prazer pela leitura.

O IDOR é um dos mantenedores da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), uma iniciativa que une pesquisadores de diversas áreas em todo o Brasil com objetivo de promover melhores práticas e políticas educacionais no país. Um dos principais temas de pesquisa da Rede CpE foca justamente em estratégias de ensino alternativas, direcionadas para o melhor aprendizado de casos particulares como os de alunos com dificuldades de aprendizagem, superdotação ou deficiências. Mas não param por aí, a Rede também busca repensar o ensino de forma translacional, isto é, adaptando de forma prática para a educação o que é descoberto nos laboratórios de pesquisa.

O coordenador da Rede, Dr. Roberto Lent, viveu uma longa carreira em divulgação científica antes de ser um dos fundadores a Rede CpE. Segundo ele, a divulgação científica é uma atividade essencial para a população, o que o levou a estender essa atividade para o público infantil. E Por que não? O Dr. Roberto, que também é pesquisador do IDOR e professor da UFRJ, foi autor de uma série de livros infantis sobre neurociência. As aventuras de um neurônio lembrador, série já esgotada, contava com cinco volumes ilustrados, cada um explicando de forma lúdica e acessível diversas funções neuronais, como as responsáveis pela memória, pelos sentidos e até pelos sentimentos. Isso nos leva a concluir que, o que faz um conteúdo ser ou não ser infantil, é afinal e simplesmente a forma como contamos uma história. E essa busca por  fazer o conhecimento ser compreendido por quem quer que seja tem aberto muitos horizontes no ensino e na popularização da ciência.

Apenas para menores?

Se engana quem acha que livro infantil é só para criança, e não um livro também para crianças. Segundo dados do Instituto Pró-Livro (IPL), os pais e os professores são os principais influenciadores no desenvolvimento do hábito da leitura na infância. E 88% dos leitores adultos no país afirmam que ganhar livros quando criança foi um fator crucial para o desenvolvimento de seu prazer pela leitura. Segundo a psicóloga Rosinda Oliveira, do Instituto de Psicologia da UFRJ, o ato de compartilhamento da leitura é uma interação que traz ainda mais benefícios emocionais para os participantes, além de influir diretamente na construção do sujeito. Essas interações podem ocorrer na escola, em grupos de leitura, ou na própria família. No último caso, porém, a psicóloga explica que a experiência é importante para estabelecer interesses em comum entre pais e filhos, além de contribuir efetivamente para o estreitamento dos laços familiares. Pensando assim, o livro até pode ser infantil, mas acaba beneficiando igualmente crianças e adultos, tanto os que leem com elas, quanto os adultos que elas irão se tornar. E não é porque é divertido e prazeroso, que o assunto deixa de ser um compromisso sério e extremamente fundamental.