O papel dos médicos na inovação

Palestrante defende que, como usuários finais dos produtos inovadores, médicos precisam ter participação ativa em seu desenvolvimento.

Nas últimas décadas, a revolução digital vem transformando todas as profissões, e a área médica não é exceção. Porém, no futuro próximo, o mercado da saúde ainda deve passar por alterações radicais. “O hospital como conhecemos hoje deixará de existir”, afirmou o cardiologista Miguel Aguiar Netto, CEO do Instituto Latino Americano de Gestão em Saúde (Inlags), em palestra no Open D’Or Healthcare Innovation Hub, no Rio de Janeiro, na sexta-feira (1/2). Sua fala inaugurou o Open D’Or Talks, série de palestras mensais que abordará diferentes temas da inovação em saúde ao longo de 2019.

Para Netto, o setor de saúde está caminhando para se transformar em um mercado de serviços baseados em valor. “A tecnologia permite conectar quem oferece o serviço a quem precisa utilizá-lo”, disse, enfatizando que o paciente buscará os serviços que mais oferecem valor a ele, o que supõe critérios muito pessoais de escolha. Outra transformação sugerida pelo palestrante é que a tecnologia será capaz de reduzir o desperdício de tempo e recursos. “Hoje, o setor de saúde trabalha com até 45% de desperdício – incluindo procedimentos desnecessários, fraudes etc. Em outras palavras, está fadado à insustentabilidade”, avaliou.

Para mudar essa realidade, inteligência artificial, blockchain e Internet das Coisas, expressões que já fazem parte do dia a dia de outros setores, serão fundamentais também na saúde. A principal aplicação dessas novas tecnologias será o processamento da gigantesca quantidade de dados gerados constantemente em um mundo cada vez mais conectado – estima-se que, ao longo, da vida, cada paciente gerará o equivalente a 300 milhões de livros em informações. “Em 2020, toda a informação médica do mundo vai duplicar a cada 73 dias”, disse o palestrante. “Esse ‘mar’ de dados é, ao mesmo tempo, resultado e combustível da transformação digital”.

Netto destacou que cerca de 80% dos dados médicos permanecem “invisíveis”, pois não são tratados para gerar informações que possam ser úteis ao sistema de saúde. Será preciso utilizar técnicas como deep learning e machine learning para que os dados sejam capazes de, por exemplo, aprimorar o acesso aos serviços de saúde, dar suporte à decisão médica e reduzir a variabilidade das ações, com padronização baseada em evidências. “Nós vamos começar a atender o paciente antes mesmo de ele chegar no posto de atendimento”, apostou.

O especialista argumentou também que o desenvolvimento de novas soluções para lidar com dados e outras questões relacionadas ao atendimento em saúde não pode ficar a cargo apenas de engenheiros, programadores e especialistas da área de computação. Para ele, é fundamental que os médicos e outros profissionais de saúde se envolvam nesse processo, de modo a guiar o desenvolvimento de tecnologias que irão, de fato, atender às necessidades do setor.

Um desafio importante destacado por Netto será a redução do custo da utilização de novas tecnologias em ambiente hospitalar. “Diferentemente do que acontece em outros setores, nos hospitais, quanto mais tecnologia, mais caro o tratamento”, afirmou. Em sua opinião, para viabilizar essa transformação mais radical do ecossistema da saúde será necessário adotar novas tecnologias em larga escala, recrutar e reter talentos em diferentes áreas do conhecimento e repensar a forma como regulamentamos novos medicamentos e opções terapêuticas.