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Pesquisa faz um raio-X para descobrir como a organização e processos de cuidado se traduzem na qualidade e custos do tratamento oferecido ao paciente grave em UTIs no Brasil

 

A população mundial segue envelhecendo, e o número de idosos chegou a 12,3% em 2015, segundo levantamento da ONU. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a fatia da população brasileira acima dos 60 anos alcançou 14,3% no mesmo ano, contra 9,8% em 2005. Por outro lado, as faixas etárias de crianças, adolescentes e adultos jovens encolheram sensivelmente nos últimos anos.

Os dados acima indicam que, se o número de brasileiros seguir evoluindo desta maneira, uma população composta majoritariamente por idosos será vista rapidamente.  Sabe-se que tais tendências são uma realidade global, mas que terão maior impacto nos países emergentes, onde vive mais da metade da população mundial.

Além dos impactos sociais e previdenciários iminentes, o envelhecimento da população aumenta a demanda por cuidados médicos especializados, já que torna mais frequente as complicações médicas relacionadas. Nesse contexto, os estudos que investigam melhorias na qualidade do tratamento de pacientes críticos se mostram extremamente necessários.

No Brasil, a terapia intensiva representa gasto elevado em saúde. Atualmente, o país ocupa o terceiro lugar no ranking de países com maior número de leitos de terapia intensiva (41 mil), atrás de Estados Unidos e China, segundo a AMIB (Associação de Medicina Intensiva Brasileira). Apesar do alto número, a maior quantidade de leitos está concentrada na rede hospitalar privada, e sua distribuição entre as regiões do Brasil não é homogênea. Desse modo, ganhos de eficiência e utilização ótima de recursos dentro das UTIs são essenciais para aumentar a qualidade e capacidade de atendimento dos centros brasileiros sem a necessidade de investimentos desproporcionais.

O estudo

Diante deste cenário, um grupo de pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em parceira com diversas instituições brasileiras e a Universidade de Pittisburgh, nos EUA, começou a estudar o efeito de fatores organizacionais sobre o custo do tratamento e evolução de pacientes internados em UTIs do Brasil.

“A organização, estrutura e processos de cuidado médico de UTIs exercem papel fundamental na qualidade e custo do tratamento oferecido ao paciente”, afirma o Dr. Marcio Soares, coordenador do estudo e pesquisador do IDOR. Apesar do consenso, o conhecimento a respeito do impacto desses fatores sobre a evolução do quadro dos pacientes internados e seus recursos utilizados ainda é muito limitado. Além disso, a maior parte dos estudos disponíveis foi realizada em países desenvolvidos, e existem questionamentos sobre a capacidade da transposição dos resultados destes estudos para países em desenvolvimento, como o Brasil.

Com o objetivo de elucidar tais fatores, foi criado em 2013 o estudo denominado ORCHESTRA (Organizational Characteristics in Critical Care – Características Organizacionais em Cuidados Intensivos). Em sua primeira fase, os pesquisadores coletaram dados de quase 60 mil pacientes internados em 78 UTIs brasileiras durante o ano de 2013.

Os resultados da primeira fase do estudo geraram oito artigos científicos, que revelaram aspectos importantes sobre o tratamento de pacientes críticos. De maneira geral, a implementação de protocolos assistenciais para otimizar o tratamento de condições graves frequentes, como a sepse e insuficiência respiratória, e para a prevenção de complicações durante a internação, como infecções hospitalares, foram associados com maior sobrevida e eficiência no uso de recursos. Além disso, no subgrupo de pacientes com câncer, que correspondem a 15%-20% dos pacientes internados em UTIs, a presença de farmacêuticos clínicos na UTI, o planejamento conjunto do cuidado do pacientes e a definição de metas terapêuticas com os oncologistas também foram associados com maior sobrevida e ganhos de eficiência. Em outra análise, os pesquisadores descobriram que unidades mais eficientes são aquelas que possuem políticas de horários de visitação mais liberais e acolhedores para os familiares, o que fornece evidência para aumento do acesso de familiares às UTIs e da sua participação no tratamento dos pacientes.

Segunda fase em andamento

Em andamento, a segunda fase do estudo coletou dados entre 2014 e 2015, alcançando importantes marcas: 93 UTIs de 55 hospitais, localizados em 11 estados brasileiros, foram incluídas no estudo. O aumento do número de pacientes observados também foi bastante expressivo, chegando a 129 mil.

Segundo o Dr. Soares, “o ORCHESTRA é o maior estudo brasileiro dedicado a investigar como fatores organizacionais de UTIs se traduzem para a melhoria do cuidado do paciente crítico”.

“Além disso, a participação da Rede D’Or São Luiz foi essencial para o sucesso do estudo”, destacou Dr. Soares, se referindo à inclusão de mais de 54 mil pacientes, vindos de 40 UTIs da rede de hospitais espalhadas por todo o Brasil.

Na segunda fase, os pesquisadores estão especialmente interessados em entender como a proporção e qualificação dos profissionais de saúde que trabalham em UTIs impactam no tratamento e se refletem no desfecho dos pacientes. Ainda, os pesquisadores vão investigar como as unidades podem se preparar para a crescente demanda por cuidados intensivos por parte de pacientes idosos ou portadores de outras doenças crônicas além do câncer. Os primeiros resultados estão previstos para serem publicados ainda em 2017.

“O aumento expressivo do número de pacientes incluídos na segunda fase do estudo ORCHESTRA vai permitir uma investigação mais completa e detalhada sobre o tratamento de pacientes críticos”, completou Dr. Soares.

Escrito por Theo Marins