Panorama das desordens do neurodesenvolvimento

Relatório da Academia Brasileira de Ciências (ABC) traz os principais desafios e avanços recentes na área dos transtornos do desenvolvimento cerebral, e as lições deixadas pelo vírus Zika.

Saiu no último dia 20 de julho o relatório do workshop “Diagnóstico e Tratamento Precoce de Transtornos Neurológicos Infantis”, realizado em novembro de 2017 pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), em parceria com a Academia Nacional de Medicina (ANM) e a Academia de Ciências Médicas do Reino Unido (UKAMS, na sigla em inglês). O encontro contou com a participação das maiores lideranças científicas mundiais no assunto, entre eles, o infectologista Fernando Bozza, a médica radiologista Fernanda Tovar Moll e o neurocientista Stevens Rehen, da equipe do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.

A comunidade médica e cientifica vem observando o aumento dos casos de desordens do neurodesenvolvimento, como autismo e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), por exemplo. Em países em desenvolvimento, como o Brasil, o panorama pode ser ainda mais grave, tendo em vista a dificuldade de diagnóstico e a estigmatização dos transtornos. Um levantamento recente sugere que recém-nascidos de países em desenvolvimento possuem risco duas vezes maior de desenvolver transtornos do que os nascidos em países desenvolvidos. Os fatores de risco para o desenvolvimento desses transtornos também foi um tema debatido pelos especialistas. Sabe-se que tais condições sofrem forte influência genética, ambiental e sociocultural, o que torna a sua prevalência muito variável entre diferentes países ou mesmo dentro do Brasil, onde há grandes desigualdades regionais.

Fatores que vão desde antes da concepção até a infância e a adolescência determinam a taxa de sobrevivência e o risco de desenvolvimento de transtornos do neurológicos. No Brasil, o sistema de identificação e acompanhamento das crianças com distúrbios ainda é insuficiente, o que torna difícil estimar o real impacto dos transtornos do neurodesenvolvimento. Por isso, os pesquisadores debateram estratégias para contornar este problema: desenvolvimento de sistemas de vigilância populacionais, métricas mais adequadas, mecanismos de intervenção e abordagens colaborativas entre os setores de saúde e educacionais foram alguns exemplos.

Lições pós-Zika

Após a orientação da Organização das Nações Unidas (ONU), que, em 2016, declarou a epidemia do Zika uma emergência de saúde pública internacional, foram realizados esforços para o direcionamento de verbas e o desenvolvimento de pesquisas que visassem esclarecer os mecanismos por trás da crise. Pesquisadores do Instituto D’Or lideraram esforços conjuntos que elucidaram aspectos importantes de vigilância, perfil epidemiológico e impacto do vírus sobre o cérebro durante a gestação. Um estudo liderado pelo neurocientista Stevens Rehen e publicado na edição de maio de 2016 da revista Science correlacionou, de forma inédita, a microcefalia e o Zika.

Disponível para download gratuito, o documento da ABC destaca ainda alguns ensinamentos deixados por toda a mobilização para contornar a crise. A atenção voltada para os transtornos do neurodesenvolvimento causados pelo vírus fez com que milhares de crianças que sofrem de outras condições do desenvolvimento cerebral deixassem de ser invisíveis ao sistema público de saúde, passando a receber a atenção e o acompanhamento adequados. Além disso, revelou grande disparidade de recursos entre as áreas afetadas e não afetadas pelo vírus, que vão desde a presença ou escassez de profissionais capacitados para a identificação dos transtornos e a disponibilidade de tratamento e acompanhamento médico.

Os esforços centralizados e o excelente histórico do programa brasileiro de imunização, que possui taxa de cobertura de 95% da população, também foram destacados durante o evento. Participantes frisaram que esforços como este podem nortear soluções para o melhor acompanhamento de crianças com desordens do neurodesenvolvimento.

FOTO: Ashley Webb/Flickr