Pesquisa clínica e ensino de oncologia

Em sessão especial no VI Congresso Internacional Oncologia D'Or, especialistas do IDOR compartilham experiências e perspectivas futuras para o campo.

A realização de pesquisas clínicas – incluindo, por exemplo, a testagem de novos medicamentos – e atividades de ensino, como os programas de residência médica, pode aprimorar o atendimento aos pacientes na área de oncologia. Esta parece ser a mensagem principal da sessão que discutiu a importância da pesquisa e do ensino nesta área médica,durante o VI Congresso Internacional Oncologia D'Or, que aconteceu nos dias 9 e 10 de novembro no Rio de Janeiro. Um painel formado por médicos e pesquisadores do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) discutiu o que a assistência aos pacientes ganha quando os profissionais de saúde se envolvem em atividades científicas e buscam aprimorar sua formação.

Presidente da Oncologia D’Or e diretor do IDOR em São Paulo, o oncologista Paulo Hoff foi um dos palestrantes da sessão, que descreveu como “uma das mais importantes do congresso”. Ele traçou um histórico do estabelecimento das pesquisas clínicas desde o século 18, salientando que a medicina avançou enormemente com a incorporação da metodologia científica na testagem de abordagens terapêuticas.“Hoje, o conceito de pesquisa clínica está bem estabelecido, e o ritmo de produção do conhecimento é intenso”, disse. “Em menos de três meses, a quantidade de conhecimento disponível na área médica dobra”.

Para Hoff, o médico precisa,hoje, estar sempre em busca de atualização, de modo a poder contribuir de forma mais incisiva para a melhora do paciente. Porém, um desafio nesse cenário é a falta de treinamento dos profissionais da área da saúde na metodologia científica, que leva à leitura pouco crítica dos artigos publicados. O médico ressaltou, ainda, que, sendo a Rede D’Or São Luiz a maior rede privada de atendimento hospitalar no Brasil, trata-se de um ambiente favorável ao desenvolvimento de melhorias, em especial nas áreas médicas mais demandadas pela população brasileira.

“É nosso dever fazer um programa de oncologia bem fundamentado”, afirmou. Hoff destacou, também, que o legado desse programa se estende não apenas aos hospitais da Rede, mas também ao restante da população brasileira, que poderá se beneficiar do avanço do conhecimento científico gerado pela instituição.

Outro membro do corpo de médicos da Oncologia D’Or e do IDOR, o hematologista Eduardo Rego compartilhou sua experiência na utilização de redes clínicas para geração de conhecimento médico, em especial no Consórcio Internacional de Leucemias Agudas (ICAL, na sigla em inglês), criado em 2004 para aprimorar o tratamento da doença em países da América Latina, incluindo Brasil, México, Uruguai, Chile, Peru e Paraguai.

Apesar de desafiador sob o ponto de vista da padronização de processos e da unificação de bancos de dados,o projeto teve saldo positivo. “Com um protocolo relativamente simples e barato e o apoio de uma rede clínica, conseguimos aumentar a sobrevida global dos pacientes em 25%”, comemorou Rego. “A estratégia baseada em redes clínicas aumenta a viabilidade dos ensaios clínicos e permite responder a uma maior gama de perguntas, além de usar os recursos de forma racional e aumentar o controle de qualidade de testes de laboratório e bancos de dados”. O hematologista destacou, ainda, que a estratégia tem caráter educacional intrínseco e permite desenvolver a infraestrutura local ou regional de saúde.

A médica da Oncologia D’Or e pesquisadora do IDOR Laura Testa destacou a importância da realização de ensaios clínicos no Brasil, para assegurar que os resultados sejam aplicáveis à população nacional. Ela apresentou a estratégia de integração das pesquisas realizadas pela Rede D’Or, sob o comando de Hoff. “A criação do espaço do IDOR em São Paulo consolida, a nível nacional, as nossas iniciativas de pesquisa clínica”, completou a presidente do Instituto, Fernanda Tovar Moll. “Esperamos aprender com a experiência da oncologia”.

 

Residência médica nos sistemas público e privado

Para Hoff, o ideal a ser perseguido na oncologia é estabelecer a prática médica sobre um tripé formado por assistência, pesquisa e ensino. Por isso, o debate incluiu o também oncologista Daniel Herchenhorn, coordenador da Residência Médica em Oncologia Clínica do IDOR e da Rede D’Or São Luiz. Apesar de recente, o programa – criado em 2017 – está fundamentado nessa perspectiva. Por isso, além das atividades no hospital e em serviço de ambulatório, os residentes também têm a oportunidade de se envolverem projetos de pesquisa clínica e laboratorial.

Herchenhorn destacou, também, que os residentes do programa participam de várias atividades multidisciplinares,incluindo eventos e reuniões científicas, além da possibilidade de um período de experiência fora do Rio de Janeiro, por meio de convênio com a Universidade de Miami, nos Estados Unidos, e com hospitais em São Paulo e no Distrito Federal. “É importante ainda a relação muito próxima que os residentes desenvolvem com nossa equipe médica”, completou, destacando a interação com radio-oncologistas, segundo ele, um diferencial do programa do IDOR.

Para uma perspectiva do sistema público de saúde, o oncologista Daniel Saragiotto, que é vinculado à Oncologia D’Or, ao IDOR e à Universidade de São Paulo (USP), apresentou o programa de residência em oncologia do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), da USP. Em sua opinião, são vantagens do programa de residência na rede pública o grande volume e a variedade dos casos atendidos e o aprendizado sobre a saúde pública e suas dificuldades, bem como a racionalização dos gastos com exames e medicamentos e a maior proximidade com o ambiente acadêmico,sobretudo nos hospitais universitários.

Por outro lado, Saragiotto apresentou como desvantagens a pouca experiência com o sistema de saúde suplementar – onde a maior parte dos médicos atuará após a residência – e a maior demora na incorporação de novos tratamentos e drogas. “Essas deficiências podem ser contornadas com parcerias com o setor privado, e também com a realização de pesquisas clínicas”, argumentou. Tanto no caso dos hospitais públicos quanto nodos privados, defendeu o especialista, a presença de programas de residência estimula a formação continuada do corpo clínico e eleva a qualidade do atendimento aos pacientes.