Peter Walter e os caminhos da descoberta científica

“O caminho nunca é linear”, afirmou Peter Walter, biólogo celular, coautor do livro The Cell, ao ministrar palestra no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino no dia 1º de março. Para uma audiência repleta de alunos, professores e pesquisadores, Walter falou da tortuosa trajetória de suas pesquisas, que revelaram os mecanismos de funcionamento do sistema celular de qualidade proteico, chamado Unfolded Protein Response (em tradução livre, resposta a proteínas mal enoveladas).

Em seu trabalho, Walter esteve focado em processos que acontecem no retículo endoplasmático, estrutura celular responsável pela produção de proteínas que têm como destino a superfície da célula ou o meio externo, por meio de secreção celular. A principal função dessas proteínas é permitir a comunicação entre as células e o ambiente. Além de funcionarem permanentemente como sensores – coletando pistas do meio externo –, as proteínas também participam de funções envolvidas na divisão, migração, diferenciação e morte celular.

Por isso, é muito importante que sua produção seja realizada corretamente. Proteínas defeituosas ou malformadas podem dar origem a problemas como câncer, diabetes e doenças neurodegenerativas. Assim, em condições normais, é possível dizer que as células gastam mais energia impedindo que proteínas defeituosas ganhem a superfície celular ou o meio externo do que produzindo propriamente essas proteínas – trocando em miúdos, a qualidade da produção é mais importante do que a quantidade.

Animação explica o processo de resposta celular às proteínas mal enoveladas (em inglês).

Entender como toda essa complexa maquinaria celular funciona em condições normais e sob estresse é a grande paixão de Walter, que tem se debruçado sobre o tema há décadas. Seus trabalhos ganharam notoriedade ao elucidarem os mecanismos pelos quais as células constroem e mantêm o controle de qualidade proteico, o que abriu enormes possibilidades terapêuticas. Em reconhecimento às suas contribuições à ciência, o pesquisador recebeu diversos prêmios, incluindo o Breakthrough Prize em ciências da vida de 2018.

“Buscar o que não se sabe pode ser assustador, pois você não sabe onde vai chegar”, confessou Walter durante a palestra. O cientista enfatizou, porém, a importância de superar os obstáculos e seguir explorando.

Peter autografou livros e tirou fotos com estudantes.

Assista à palestra de Walter no Instituto D’Or.

 

Bate-papo com jovens pesquisadores

Ainda no Instituto D’Or, Walter se reuniu com jovens pesquisadores, em sua maioria estudantes de doutorado da instituição e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para um bate-papo sobre carreira científica, nutrindo uma de suas atividades mais prazerosas: ensinar e formar novos pesquisadores. Os alunos fizeram perguntas sobre como Walter enxerga alguns dos principais desafios e mudanças que a ciência biomédica vem enfrentando.

Quando questionado sobre como soluções criativas (e muitas vezes baratas) podem resolver problemas complexos na ciência, Walter foi enfático: “O tempo é o recurso mais valiosos que temos. Se você pode responder a uma pergunta científica com um experimento simples, não pense em alternativas rebuscadas ou complexas. Da mesma maneira, não devemos perder muito tempo tentando desenvolver o experimento perfeito, pelo simples medo de falhar. Frequentemente isso pode lhe fazer não sair do lugar. Faça, e deixe os dados dizerem algo, mostrar para onde seguir”, aconselhou Walter, estimulando a audiência a aprender com os erros e encontrar caminhos, ainda que tortuosos, para suas próprias descobertas.

“Gostei muito do modo como o Peter Walter pensa a ciência quando diz que não podemos desistir das nossas hipóteses ou postergá-las, pois isso resulta na não execução de pesquisas que podem contribuir pra o crescimento da ciência, o que gera frustração”, destaca Luiza Ugarte, economista e estudante de doutorado do Instituto D’Or.

 

Pensar fora da caixa: assista ao Minuto Ciência com Peter Walter.