Pneumonias e terapia intensiva

Estudo aponta que aperfeiçoamento dos critérios de triagem dos pacientes para internação poderiam otimizar o uso de leitos de UTI.

Novas medidas de triagem para a internação em unidades de terapia intensiva (UTI’s) poderiam melhorar a alocação de leitos de UTI para tratamento de pneumonia, indica estudo recém-publicado na revista Journal of Critical Care. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores levantaram dados de 800 internações em UTI’s do estado do Rio de Janeiro durante o ano de 2016. Seu foco foram as pneumonias adquiridas na comunidade (PAC), isto é, não foram considerados os casos em que a infecção se deu no hospital ou em outras unidades de saúde.

No Brasil, a PAC é a principal causa de admissão em UTI’s no Sistema Público de Saúde (SUS), totalizando cerca de 700 mil casos por ano. Para o médico intensivista Jorge Salluh, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e líder do trabalho, a doença representa o perfil do usuário típico dos serviços de terapia intensiva de um hospital público brasileiro e olhar para ela é, de certa forma, olhar para todo o sistema público de saúde, em especial no que diz respeito à necessidade crescente de otimização de processos e recursos.

Assim, o objetivo da pesquisa foi duplo: por um lado, obter um panorama dos fatores associados à mortalidade de pacientes com PAC internados em UTI’s fluminenses e, por outro, apontar possíveis alternativas para reduzir o impacto da doença. Especificamente, os especialistas buscaram saber que características dos pacientes mais contribuíam para que fossem à óbito e se o tempo levado até a internação havia sido determinante para o desfecho observado.

Foram incluídas na amostra 16 UTI’s de quatro grandes hospitais estaduais. Dos quase 8 mil pacientes maiores de 15 anos internados nas unidades, cerca de 10% cumpriram os critérios para análise. Fatores como idade, gravidade, presença de outras doenças e tempo até a internação foram avaliados.

A maioria dos pacientes (78,5%) foi admitida na UTI a partir do atendimento de emergência. Houve, também, pacientes transferidos de outra UTI (16%) ou enfermaria (2,8%). Confirmando resultados de outros estudos, os pesquisadores observaram uma alta mortalidade nos casos de PAC: a proporção de óbitos nas UTI’s foi de 56% e a hospitalar, 66,5%. Algumas características dos pacientes, como necessidade de ventilação mecânica, idade e presença de outras doenças estiveram fortemente relacionadas à mortalidade.

No entanto, o resultado que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o tempo despendido até a admissão na UTI, que girou em torno de um dia. Os achados revelaram que este foi um fator diretamente responsável pela mortalidade. “Sabemos que este é um tipo de doença que chamados de ‘tempo-dependente’, pois as horas iniciais definem o futuro clínico do paciente”, destaca Salluh.

Fatores modificáveis

Em um paciente muito idoso ou com quadro clínico delicado, pode ser muito difícil evitar a morte. Trata-se de características do paciente, que não são controladas pela equipe hospitalar. Por outro lado, o tempo de espera para a entrada na UTI é o que os especialistas chamam de fator modificável: pode – e deve! – ser trabalhado.

“Esse resultado pode ser interpretado de duas formas: ou, de fato, existe um gargalo para que o paciente grave chegue até a UTI, ou existe um mau reconhecimento da real gravidade do quadro do paciente”, argumenta Salluh. Os resultados do estudo apontam que, para cada dia de atraso na remoção do paciente com PAC para a UTI, o risco de morte substancialmente chegando a até 90%. Sobre este aspecto, Rodolfo Espinoza, médico intensivista do Hospital Copa Star e autor principal do estudo, destaca: “os nossos achados podem dar ajudar na elaboração de políticas públicas de admissão de pacientes graves no SUS”.

Para Salluh, algumas medidas podem contornar este cenário, como implementar estratégias de cuidado fora da UTI e aumentar a conscientização de pacientes e profissionais de saúde sobre a sepse, também conhecida como infecção generalizada. Frequentemente, a sepse está associada às pneumonias e não é devidamente identificada no primeiro contato com o paciente. Um conhecimento mais aprofundado de que tipo de paciente precisa ser tratado com maior urgência ajudaria a reduzir a mortalidade nos casos de PAC. “É possível utilizar conhecimento científico para dar suporte à decisão, melhorando os critérios de triagem”, conclui Salluh.