Portas abertas para a inovação

Agilizar a transformação de boas ideias em bons produtos disponíveis na área médica e hospitalar é o grande objetivo do Open D’Or Healthcare Innovation Hub, iniciativa criada pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e pela Rede D’Or São Luiz para fomentar a inovação e o empreendedorismo em saúde. À frente do Instituto D’Or desde sua criação em 2010 e idealizador do hub de inovação, o neurologista Jorge Moll Neto divide suas impressões sobre o setor de inovação em saúde no Brasil e no mundo, explica suas motivações e descreve suas expectativas para o Open D’Or, que está iniciando suas atividades em sede própria no Rio de Janeiro.

Como você avalia o mercado da inovação em saúde no Brasil?

A inovação na área de saúde vem experimentando um crescimento explosivo no mundo inteiro. Estão surgindo muitos tratamentos novos e eficazes – assim, as pessoas estão vivendo mais e melhor. Mas essas novidades estão surgindo predominantemente nos países do primeiro mundo, enquanto os países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, têm tido um papel muito limitado na geração de inovação, propriedade intelectual e negócios em saúde. Estamos ficando para trás, porque a aceleração é muito grande lá fora. Isso tem um peso importantíssimo na balança econômica do país, pois precisamos importar as tecnologias.

Apesar de o Brasil ter demonstrado um crescimento importante na inovação nas áreas tecnológica e financeira – os bancos brasileiros estão entre os mais sofisticados do mundo –, temos baixa capacidade de inovar na área da saúde. É uma área com desafios muito particulares.

Quais são esses desafios?

Quem vem da área tecnológica tende a subestimar a complexidade da biologia humana. Só recentemente as pessoas começaram a enxergar que a saúde é muito mais difícil de abordar e requer mais recursos, por exemplo, para fazer ensaios clínicos e testar produtos. Outro gargalo é a parte regulatória, um complicador necessário até certo ponto. E há a dificuldade de solucionar quem paga a conta do desenvolvimento das inovações. Os sistemas de saúde que pagam por essas tecnologias já estão nos seus limites. É preciso, então, gerar soluções que não só tragam resultados clínicos superiores, mas também reduzam custos. Esse é um desafio gigantesco.

E de onde veio a ideia de fazer alguma coisa para mudar essa realidade?

Vários anos atrás, em discussões que tínhamos dentro do Instituto, nos perguntávamos por que estávamos conseguindo fazer excelente ciência, porém sem geração de produtos e tecnologias. No início, pensávamos que o problema era a falta de uma política que promovesse inovação e produção de propriedade intelectual. Depois, concluímos que a política sozinha não resolveria o problema, porque faltava o elemento do empreendedorismo. É difícil a inovação puramente científica se traduzir numa ideia de um produto se você não tem um interessado em transformar aquilo em negócio. Então, vimos que faltava estimular a cultura empreendedora e articular com diversos setores da academia, do setor privado e do governo.

Além da motivação de fazer a diferença nessa área da inovação, enxergamos também uma oportunidade, porque o Instituto D’Or está ligado a uma grande rede hospitalar e de serviços médicos, a Rede D’Or São Luiz (RDSL). Isso nos torna bastante atraentes para empreendedores e desenvolvedores de tecnologia que queiram se integrar a esse ecossistema que reúne uma grande corporação médica, um instituto de pesquisa e uma iniciativa de inovação aberta, que é o Open D’Or.

Por fim, criamos no Instituto D’Or também uma série de conexões internacionais. A exposição a essas redes é altamente benéfica para os empreendedores da área da saúde, inclusive para buscar exemplos ou modelos que possam ser adaptados, testados e adotados na realidade brasileira.

Por que é importante estimular o empreendedorismo em um ambiente científico e de educação como o Instituto D’Or?

Um problema mundial é o encaminhamento dos pesquisadores jovens, que acabaram de concluir o doutorado ou outra fase da sua carreira científica. Mesmo lá fora, a academia não consegue dar conta de todos esses cientistas – absorve algo em torno de 40 ou 50%, e o restante precisa buscar outras atividades. Isto também ocorre no Brasil: não há espaço para todo mundo se transformar em professor de universidade. E para onde vão esses profissionais qualificados? Eles estão realmente qualificados para se enquadrar em um mercado diversificado de trabalho?

Em outros países, como os Estados Unidos, acontece muito de o indivíduo estar na academia e, em dado momento, virar um empreendedor, ou ir trabalhar na área industrial. Muitas vezes, esse mesmo indivíduo retorna à academia – e lá costuma ser muito bem recebido! Aqui no Brasil, isso é muito raro.

Talvez porque a academia não prepare essas pessoas para trabalhar na indústria ou para o empreendedorismo...

Exatamente. Isso tem um efeito duplamente lesivo. Por um lado, se o indivíduo for para a carreira acadêmica, mas não souber lidar com a área privada e industrial, muitas vezes irá perder a oportunidade de oferecer uma descoberta para que seja trabalhada como uma inovação e, eventualmente, como um produto numa empresa. A academia inteira perde essa oportunidade porque o pesquisador não tem essa mentalidade. Os pesquisadores não têm o preparo para fazer uma transição para fora da academia. Saem de seus doutorados com um preparo basicamente acadêmico, e é muito difícil para eles entender e valorizar o que é a atividade empreendedora ou corporativa. Isso gera perda de talentos.

Por outro lado, o ambiente corporativo pouco entende e interage com o acadêmico-científico, e tem dificuldade de avaliar e absorver profissionais vindos de lá.

O Open D’Or, como o próprio nome diz, quer trabalhar a inovação aberta. O que você entende por inovação aberta e por que é importante trabalhar com essa perspectiva?

A inovação aberta é uma forma mais fluida de fazer as coisas, pois permite que vários agentes atuem. Não é um processo fechado, cujo desfecho vai ser útil só para a organização que está tocando o projeto. Isso amplia nosso radar, porque vamos abrir as portas para que empreendedores, técnicos, acadêmicos e profissionais de diversas áreas venham aqui e discutam suas ideias. Então, apoiaremos as ideias de maior potencial.

É claro que essa é só uma das formas de se promover a inovação, não é a única e não necessariamente é a melhor. Não existe um julgamento de valor na nossa escolha. Sabemos que a inovação aberta é importante em algumas áreas, mas não funciona para todas – a inovação corporativa, que é outro modelo de negócio, acontece dentro das empresas mais inovadoras, e pode funcionar também. Mas acreditamos que este é um bom momento para se fazer inovação aberta, especialmente se articulada com outros atores do chamado “ecossistema” de inovação.

Como vai ser a interação com as startups?

Há várias camadas de atuação. Uma delas é aproximar os empreendedores da área de saúde de um instituto de pesquisa como o nosso, que faz ciência de ponta e de alta complexidade, e também da nossa mantenedora, a RDSL, que é uma grande empresa da área de saúde. Esse acesso a cientistas, médicos e executivos tem um valor muito grande para a discussão de projetos. Pretendemos promover encontros de curta duração, onde os empreendedores vão poder apresentar suas soluções e discutir com esses especialistas. Isso é mutuamente benéfico: por um lado, o Open D’Or vai conhecer essas soluções; por outro, os empreendedores serão apresentados a pessoas que têm uma visão científica e de mercado.

Outra camada são as empresas que vão trabalhar no desenvolvimento de soluções aqui dentro do Open D’Or, com a equipe ou parte dela alocada fisicamente aqui, ou mesmo virtualmente. Nesse caso, teremos um processo de imersão, com mentoria em várias áreas e interação muito mais intensa. Esse programa vai ser oferecido a um número menor de empresas selecionadas, até pela limitação de espaço.

Qual o perfil de empreendedor que o Open D’Or busca?

Nessa camada mais aberta, de contatos iniciais, queremos discutir com a comunidade empreendedora em geral, mesmo com os muitos jovens. Queremos aconselhar, trocar ideias, orientar. Já para ficarem sediadas aqui, queremos empresas que tenham um produto ou projeto bem consolidado; algo que, de fato, em um intervalo breve de tempo – algumas semanas ou poucos meses – possamos ajudar a chegar até o mercado, ou pelo menos a uma prova de conceito mais avançada, que possa ir buscar investimento ou ter algum tipo de tratativa de negócios com a RDSL ou outros parceiros externos.

Vocês esperam ver resultados muito rápido.

Os resultados têm que ser vistos rapidamente. Esse processo de recriar ou adaptar o produto e testá-lo tem que ser feito num intervalo curto. É claro que há vários estágios, e que cada etapa vai requerer elementos financeiros, humanos, conexões etc. Naturalmente, existe também um processo darwiniano, bem conhecido das startups.

Sobrevivem os mais bem adaptados?

Isso. De nosso lado, vamos tentar dar elementos de sobrevivência para que essas empresas tenham um posicionamento e uma evolução maior e melhor. Nosso interesse é aumentar a sobrevida delas. Ao mesmo tempo, sabemos que nem todas vão sobreviver, e todo mundo tem que estar ciente disso.

Um dos grandes destaques da estrutura do Open D’Or é a existência de um Living Lab. Qual a sua importância?

Essa ideia veio de uma percepção nossa, muito concreta, de que muitas vezes, as ideias de produtos e softwares, desenvolvidas internamente ou por empresas parceiras, esbarravam na mesma dificuldade. Por questões regulatórias e de risco, era muito difícil fazer testes – por exemplo, uma prova de conceito real num hospital –, porque aquilo podia ameaçar a segurança de várias formas: a segurança do paciente, a segurança do hospital, a segurança de sistemas...

Isso sempre foi uma pedra no sapato na hora de testar soluções, tanto na parte de sistemas quanto na parte de equipamentos médicos. E travava o processo todo. O Living Lab é uma forma de simular esses ambientes hospitalares, em termos de equipamentos e sistemas, para permitir testes de forma segura e rápida, que vão permitir ajustes e aperfeiçoamentos sob a supervisão de equipe especializada.

O Instituto D’Or está fazendo um grande esforço para a criação desse hub de inovação, e vai oferecer o serviço sem custos para as startups que se afiliarem. O que o Instituto espera ganhar com isso? E o que a Rede D’Or São Luiz ganha com isso?

A primeira coisa é uma mudança cultural. Esperamos contagiar cientistas e administradores, mostrando o valor que existe no empreendedorismo e na criação de soluções inovadoras na área de saúde. Isso vai nos ajudar a encaminhar melhor os talentos aqui dentro, identificar conexões que possam trazer benefícios diretos, oportunidades de parcerias que possam trazer investimentos e também oportunidades de os projetos científicos verem suas aplicações no mundo real.

Em segundo lugar, há um enorme benefício em o Instituto D’Or se posicionar, para além das áreas de ensino e produção científica, na área da inovação, ajudando na formação profissional de indivíduos que queiram ir para a área do empreendedorismo. É um valor agregado que se cria. Se conseguirmos impulsionar alguns projetos de sucesso, isso trará um benefício não só para os empreendedores e suas empresas, mas também para a missão do Instituto D’Or, para a RDSL e para a sociedade como um todo.

Para a mantenedora, o grande benefício é estar mais perto dessa grande explosão de empreendedorismo. É colocar no radar as melhores startups e seus empreendedores, que estão colocando a mão na massa para criar valor. A RDSL pode ajudar e ser beneficiada, pois pode identificar nessas novas empresas produtos e serviços úteis às suas atividades e estabelecer parcerias ou investir nessas soluções.