Psiquiatria hoje

Palestra no IDOR discute a interface entre a psiquiatria ea neurociência, e como podemos avançar nessa área de estudo.

Depressão, esquizofrenia, ansiedade e transtorno bipolar são exemplos de temas que a psiquiatria investiga há muito tempo, mas, recentemente, vêm ganhando nova abordagem. Com o fortalecimento dos estudos de neuroimagem e genética, entre outros, abrem-se novas possibilidades para a compreensão dos transtornos psiquiátricos e, também, novas formas de lidar com eles. O psiquiatra Giovanni Salum, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, esteve na sede do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), no Rio de Janeiro, para debater este assunto.

“Há alguns motivos para a gente se animar com a integração entre a psiquiatria e a neurociência”, começou Salum. O pesquisador citou vários exemplos, incluindo ferramentas online que podem ajudar a predizer desfechos clínicos de interesse, com base em exames de ressonância magnética e marcadores neuronais, o que ajuda a pensar estratégias preventivas. "Outra possibilidade interessante é usar exames de imagem para fazer diagnóstico diferencial", acrescentou.

O especialista argumentou, no entanto, que há alguns desafios ou preocupações a serem vencidos na pesquisa nessa área. Um deles é a baixa reprodutibilidade dos estudos. Como exemplo, Salum citou os trabalhos na área de genética psiquiátrica, campo de estudo que procura associar genes a transtornos mentais. Segundo ele, embora hoje existam grandes consórcios de pesquisa dedicados ao tema e resultados consistentes, não foi assim que o campo começou. "Houve uma explosão de trabalhos, mas, também, uma explosão de não reprodutibilidade, o que levou a uma total descrença nessa área", contou. O mesmo acontece com os estudos na área de neuroimagem e psiquiatria.

Outros desafios são tornar os resultados de estudos realmente úteis na prática clínica e trabalhar com a ideia de que existe um fenótipo psiquiátrico, isto é, um conjunto de manifestações que podem ser comuns a diferentes transtornos mentais – para Salum, essa percepção pode ajudar a entender o que é realmente específico de cada transtorno.

Para concluir, o pesquisador listou algumas iniciativas de seu grupo para contornar essas dificuldades. "O primeiro ponto é poder investir em estudos com amostras grandes e nessa ideia de trabalho de grupo, com uma cultura de compartilhamento de dados", apostou. Ele participa do projeto CONEXÃO Mentes do Futuro, que há oito anos acompanha 2,5 mil crianças nas cidades de Porto Alegre e São Paulo com o objetivo de investigar questões genéticas e sua relação com o ambiente e com o neurodesenvolvimento.

Salum mencionou, também, que outra tendência nesse campo de estudo é a reprodutibilidade em amostras diferentes. Nesse contexto, seu grupo desenvolveu uma pesquisa comparando resultados dos grupos de crianças do projeto CONEXÕES nas capitais paulista e gaúcha para investigar a relação entre genes de risco para doença de Alzheimer e o desenvolvimento cerebral. O objetivo final não era uma aplicação clínica, mas entender se o cérebro das crianças com aqueles genes específicos já se desenvolvia de maneira diferente do cérebro de outras crianças, que não tinham esse risco genético. "Talvez o fato de a criança com risco genético já ter uma memória pior e um hipocampo menor faça com que ela tenha uma reserva cognitiva diminuída ao longo da vida", sugeriu.

Por fim, outro interesse do psiquiatra é a criação de soluções que cheguem efetivamente ao atendimento dos pacientes. "Para fazer com que os resultados da neurociência cheguem à prática clínica, precisamos adotar uma perspectiva de desenvolvimento de produtos", argumentou. Salum e sua equipe trabalham na criação de gráficos de neurodesenvolvimento típico para uso dos médicos que trabalham na atenção primária – eles funcionariam mais ou menos como as curvas de peso e altura que são usadas como parâmetro pelos pediatras, e ajudariam a predizer problemas como dificuldades de escrita ou leitura e até uso de substâncias.