Vamos falar sobre fígado

Pouco discutidas no cotidiano, as doenças hepáticas estão na lista das mais letais no Brasil e no mundo. Pesquisas do Instituto D’Or concentram esforços em identificar precocemente suas complicações.

Raramente ouvimos falar, em reportagens jornalísticas, posts nas redes sociais ou rodas de conversa entre amigos, sobre o fígado e sua importância para saúde. Mas as doenças hepáticas são um tema de enorme relevância para a população brasileira e estão no centro das atenções de médicos e cientistas do mundo inteiro, que acompanham seu crescimento diante do envelhecimento das populações.

O fígado desempenha funções imunológicas e metabólicas, gerando produtos e nutrientes para outros órgãos, como coração, músculos, rins e cérebro. Por isso, manter seu funcionamento saudável é essencial para a vida. No Brasil, doenças hepáticas ocupam a oitava posição na lista das que mais matam. “Além de serem doenças graves, que podem levar à necessidade de transplante de fígado, ao câncer e até à morte, são extremamente caras para o sistema de saúde”, explica Renata Perez, hepatologista, pesquisadora do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O problema que mais comumente vitimiza o órgão é a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), presente em até 30% da população. De nome difícil, a doença está relacionada a maus hábitos alimentares, diabetes, obesidade e é comumente assintomática, mas pode evoluir para cirrose e insuficiência hepática. Outras doenças hepáticas – menos frequentes, mas igualmente importantes – são causadas pelo consumo excessivo de álcool e pelas hepatites virais.

Grande parte das complicações hepáticas vem dos insultos crônicos ao fígado, com os quais o paciente pode conviver por décadas sem saber. Dessa maneira, o aumento das estatísticas das doenças hepáticas vem sendo puxado pelo envelhecimento da população mundial. Com o tempo, esses insultos persistentes podem levar à cirrose, quando as células hepáticas morrem e dão lugar a cicatrizes ou fibrose, comprometendo a função do órgão. Especialistas frequentemente destacam que a principal característica das doenças hepáticas e suas complicações é serem, de modo geral, silenciosas, o que as torna mais preocupantes. É comum que os pacientes só percebam a cirrose em estágios avançados da doença, quando a estrutura do fígado já está comprometida.

Importância da pesquisa científica

Nesse contexto, a busca de formas precoces de diagnóstico é uma prioridade nas pesquisas científicas sobre doenças do fígado. No IDOR, uma linha importante de pesquisa é encontrar soluções capazes de identificar precocemente o risco que um paciente possui de evoluir para um quadro mais grave.

Atualmente, o método mais confiável para avaliar o avanço das doenças hepáticas é a biópsia do fígado, um exame invasivo que requer internação e expõe o paciente a riscos. “Porém, se estamos falando de doenças tão prevalentes como as hepáticas, é inviável submeter tantas pessoas a esse procedimento”, destaca Perez. É a partir de exames mais acessíveis, como os de sangue, urina, clínico e de imagem, que os especialistas esperam encontrar outros indicadores das doenças do fígado e sua progressão.

No IDOR, a equipe de médicos hepatologistas, gastroenterologistas e radiologistas se debruça sobre essas novas possibilidades de avaliação em colaboração com a UFRJ e com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Utilizando técnicas avançadas de imagem por ressonância magnética, os pesquisadores exploram maneiras de quantificar a real capacidade funcional do órgão em pacientes com cirrose que são candidatos ao transplante hepático. Além disso, pesquisam substâncias na urina de pacientes com cirrose para identificar marcadores capazes de predizer a chance de o paciente desenvolver insuficiência renal e vir a óbito em resposta à má condição do fígado. De acordo com os pesquisadores, tais informações podem embasar o melhor planejamento do tratamento, reduzindo complicações e os custos da internação.

Integrados a um grupo de neurologistas, radiologistas e físicos, os pesquisadores também investigam os efeitos de doenças hepáticas avançadas sobre o cérebro e o comportamento de pacientes. Em estágios avançados, o mau funcionamento do fígado leva ao acúmulo de metabólitos no cérebro – em particular a amônia –, dando origem ao quadro conhecido como encefalopatia. A partir de métodos de neuroimagem por ressonância magnética e testes neuropsicológicos, a expectativa é identificar biomarcadores neurais que apontem a gravidade do problema.

Para entender sobre as características regionais do carcinoma hepatocelular (CHC), câncer de fígado que ocorre em consequência à cirrose, os cientistas utilizam a base de dados do Sistema Único de Saúde (Datasus), onde todos esses casos são notificados. Apesar de ocupar segunda colocação na lista dos que mais matam no mundo, pouco se sabe sobre as características do CHC pelo país. Os cientistas do IDOR acreditam que este estudo inédito ajudará a compor o cenário da doença no Brasil, entendendo, em cada região do país, onde o câncer é mais prevalente e letal. O objetivo final é nortear políticas de saúde pública para reduzir o impacto do CHC.

“Nossos estudos representam esforços conjuntos de diversos profissionais com o objetivo de dar uma nova visão das doenças hepáticas e suas complicações, abrindo possibilidades de tratamentos mais adequados e redução da mortalidade”, conclui Perez.